Sururina-da-Serra Descoberta e Urgência na Proteção da Amazônia
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Sururina-da-Serra: Descoberta e Urgência na Proteção da Amazônia

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Para Quem Tem Pressa

A descoberta da Sururina-da-Serra (Tinamus resonans) na Serra do Divisor (AC) em 2021 marcou um evento histórico na ornitologia brasileira. Esta nova espécie de ave da Amazônia, com seu canto ressonante e máscara azul-ardósia, está confinada a um pequeno habitat montanhoso. Embora fascinante por sua docilidade, a Sururina-da-Serra é classificada como “vulnerável” devido à sua baixa população (cerca de 2 mil indivíduos) e às ameaças urgentes de desmatamento, garimpo ilegal e mudanças climáticas. Sua situação reflete a fragilidade da biodiversidade amazônica e a necessidade imediata de intensificação das políticas de conservação e fiscalização.

Sururina-da-Serra: O Símbolo Vunerável da Ornitologia Brasileira

No coração da Serra do Divisor, no extremo oeste do Acre, onde as florestas se entrelaçam com montanhas íngremes e o ar vibra com sons ancestrais, uma melodia incomum rompeu o silêncio em outubro de 2021. Ornitólogos brasileiros, Fernando Godoy e Ricardo Plácido, capturaram um canto que não se encaixava em nenhum registro conhecido. O que parecia um eco desorientador revelou-se o chamado de uma nova espécie de ave: a Tinamus resonans, batizada popularmente como Sururina-da-Serra ou Slaty-masked Tinamou.

Essa descoberta, publicada na prestigiada revista Zootaxa, marca um marco histórico para a ornitologia brasileira, sendo a primeira nova espécie de inhambu florestal descrita em mais de 75 anos. A nomeação científica, resonans, é uma homenagem direta ao seu canto ressonante, um “suru-suru” grave e prolongado que ecoa pelas encostas.

O Que Torna a Sururina-da-Serra Única?

Imagine uma ave que, à primeira vista, lembra uma galinha rechonchuda, com penas castanho-avermelhadas que se fundem ao tapete de folhas úmidas da mata. Seu bico curto e curvo, pernas robustas e um corpo atarracado de cerca de 40 centímetros a tornam discreta. No entanto, é a máscara azul-ardósia ao redor dos olhos que a distingue – um traço que evoca mistério, como se a natureza tivesse pintado um véu sobre seu rosto.

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A Sururina-da-Serra habita exclusivamente entre 300 e 500 metros de altitude, em uma área isolada de floresta montanhosa, acessível apenas por trilhas árduas. Sua revelação não foi simples; demandou anos de análise de gravações acústicas, amostras de DNA e observações visuais, que a separaram de parentes próximos, como o inhambu-pança (Tinamus tao). Essa nova espécie de ave é o produto de uma linhagem isolada, resultado da geografia singular da Serra do Divisor, um enclave de biodiversidade na fronteira Brasil-Peru, onde o relevo cria microclimas intocados.

A Fragilidade da Sururina-da-Serra: Um Alerta de Extinção

Vídeos recentes, capturados por câmeras armadilhadas, mostram a Sururina-da-Serra perambulando sem pressa, bicando sementes e insetos no solo fértil. Seu comportamento dócil choca: ao contrário de seus congêneres ariscos, ela não foge de humanos. Permanece imóvel, olhos curiosos fixos. Essa ingenuidade evoca o dodô, a ave extinta de Mauritius no século XVII, dizimada pela caça e pela introdução de predadores invasores. “É um lembrete sombrio”, alerta Plácido em entrevistas, “de como a falta de medo pode ser fatal em um mundo alterado pelo homem.”

Mas o encanto dá lugar à urgência. Estimativas apontam para apenas 2 mil indivíduos, confinados a uma faixa estreita de habitat – menos de 100 km² de floresta densa. Qualquer perturbação, como incêndios florestais exacerbados pelo El Niño ou o avanço do desmatamento para agropecuária, poderia extingui-la em décadas. A Serra do Divisor, apesar de ser parque nacional desde 1989, enfrenta pressões: garimpo ilegal, expansão de estradas e mudanças climáticas que alteram padrões de chuva. A Sururina-da-Serra, terrestre e de baixa mobilidade, não migra; ela é prisioneira de seu paraíso. Pesquisadores classificam-na como “vulnerável” pela União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), instando por monitoramento constante e proibições de acesso antrópico.

O Brasil como Guardião: O Papel da Ciência na Conservação

Essa descoberta transcende a ciência pura; ela ilumina o tesouro da biodiversidade brasileira. O Brasil abriga 1.900 espécies de aves, 20% do total mundial, mas perde habitats a um ritmo alarmante. A Sururina-da-Serra reforça o papel do país como guardião global: expedições como essa, apoiadas por universidades federais e ONGs, provam que a ciência nacional pode rivalizar com centros internacionais. Como enfatizado por Godoy em palestra recente na Universidade de São Paulo (USP): “Cada nova espécie é uma peça no quebra-cabeça da evolução. Perder uma é como apagar um capítulo da história da vida.”

A lição da Sururina-da-Serra é que o risco de extinção é iminente. Políticas como o Fundo Amazônia e a fiscalização via satélite devem se intensificar. Além disso, as comunidades indígenas, como os Ashaninka na região, já protegem saberes ancestrais sobre a fauna; integrá-los é chave para a conservação. O Agron reforça a importância de conteúdos que abordem a necessidade de uma produção rural mais sustentável e alinhada com a conservação, como as práticas de Manejo Integrado de Pragas (MIP).

Essa ave, frágil e fascinante, é um espelho da Amazônia: bela, isolada e sob ameaça. Sua descoberta, viralizada em redes sociais, reacende o debate sobre sustentabilidade. Que o eco de seu canto não se cale prematuramente. Cabe a nós, agora, garantir que seu ressonar perdure.

imagem: IA


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