Sistema de lagoas em cascata recupera solo e água em montanhas

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Para Quem Tem Pressa

  • Pesquisadores avaliaram a eficiência de um sistema de lagoas em cascata instalado em área montanhosa degradada por mineração no sudoeste da China.
  • A estrutura utiliza lagoas e canais em degraus ao longo do relevo para desacelerar o escoamento superficial, conter a erosão e reter água da chuva.
  • Análise biofísica apontou que mais de 95% da energia que sustenta o sistema provém de fontes renováveis da natureza.
  • Além de estabilizar encostas e restabelecer a fauna aquática e a flora nativa, a intervenção permitiu a colheita de alimentos sem agrotóxicos e gerou renda com turismo rural.

A reabilitação produtiva de terrenos íngremes ganhou um modelo mensurado e validado pela ciência na região de Chongqing, no sudoeste da China. Um estudo publicado no periódico Ecosystem Health and Sustainability avaliou o desempenho do chamado sistema de lagoas em cascata (CPS, na sigla em inglês), uma intervenção de engenharia ecológica baseada no conhecimento tradicional de manejo de encostas e reservatórios rurais.

Sistema de lagoas em cascata recupera solo e água em montanhas

Instalado no vilarejo de Lieshen, no distrito de Liangping, o projeto foi implementado em uma área de vale estreito com 3,22 hectares. O local, historicamente composto por terraços de arroz, sofreu décadas de degradação provocada pela mineração desregulada de gipsita entre as décadas de 1970 e o início dos anos 2000. As atividades minerárias causaram subsidência do terreno, perda de vegetação nativa e colapso na drenagem, resultando em erosão severa e escassez sazonal de água.

Engenharia inspirada em terraços históricos

A concepção do sistema buscou princípios de adaptação topográfica e retenção hídrica presentes nos terraços agrícolas de Hani e nas lagoas tradicionais de Shanping. Em vez de erguer estruturas pesadas de concreto convencional, o projeto organizou pequenos reservatórios e canais dispostos em desnível, acompanhando as curvas de nível do terreno entre 730 e 780 metros de altitude.

A estrutura é formada por quatro componentes conectados:

  • Tanque de captação superior: armazena o escoamento inicial das chuvas e regula a descida do fluxo.
  • Grupo intermediário de lagoas em terraço: tanques menores providos de poças mais profundas e vegetação aquática, responsáveis por quebrar a velocidade da água e decantar sedimentos.
  • Lagoa de detenção: amortecedor de cheias que auxilia na retenção de nutrientes.
  • Lagoa terminal (Fengshui): reservatório próximo à área comunitária, voltado à regulação microclimática, piscicultura e reserva contra incêndios.

A capacidade total de retenção de água alcançou 20.352 metros cúbicos. Ao longo dos terraços, cômoros vegetados com plantas campestres e arbustos funcionam como barreiras vivas, minimizando o risco de enxurradas e estabilizando o solo frágil.

Avaliação por emergia revela alta dependência renovável

Para medir a sustentabilidade da intervenção para além da contabilidade financeira convencional, a equipe utilizou a análise de emergia solar (expressa em solar emergy joules ou sej). Essa metodologia termodinâmica calcula a quantidade direta e indireta de energia solar necessária para produzir todos os bens, serviços e fluxos ambientais que mantêm um sistema em funcionamento.

O monitoramento apontou que 95,2% dos fluxos de entrada no sistema são provenientes de recursos naturais renováveis locais, como chuva, insolação e vento. Materiais comprados não renováveis (como brita e cimento utilizados na montagem inicial) responderam por 4,56% da entrada, enquanto as perdas por erosão representaram apenas 0,19%.

O índice de sustentabilidade emergética (ESI) atingiu a marca de 87,1, acompanhado por uma razão de carga ambiental (ELR) de 0,18. Valores de carga ambiental inferiores a 1 indicam estresse ecológico muito reduzido sobre o ecossistema receptor. Em comparação com modelos agrícolas tradicionais avaliados pela mesma metodologia — como sistemas intensivos de rotação arroz-legumes ou cultivo de milho —, a estrutura em cascata exibiu eficiência sustentável amplamente superior, viabilizada pelo aproveitamento de processos biológicos e hídricos espontâneos.

Retorno ecológico e diversificação de renda

A recomposição da paisagem gerou benefícios simultâneos para a conservação e para a subsistência local. O ganho em biodiversidade representou 83,54% da emergia total gerada pelo sistema: os levantamentos registraram um incremento de 53 espécies de plantas vasculares superiores e a ocupação das lagoas por 61 espécies de macroinvertebrados aquáticos.

Nas bordas dos terraços e áreas adjacentes secas, a presença de flores silvestres e árvores dispersas atraiu polinizadores e predadores naturais de pragas agrícolas. Esse equilíbrio ecológico viabilizou a colheita de berinjela, milho, pêssego e hortaliças aquáticas sem a aplicação de fertilizantes químicos industriais ou defensivos agrícolas sintéticos.

A revitalização do vale também abriu espaço para o turismo rural sustentável, impulsionando pousadas domiciliares e passeios voltados ao bem-estar e à educação ambiental. Segundo os dados levantados junto a produtores e autoridades locais, as receitas associadas ao ecoturismo geraram um incremento anual de cerca de US$ 21 mil para a comunidade, consolidando uma alternativa econômica viável para regiões montanhosas ambientalmente vulneráveis.

fonte/crédito: Imagem destacada ilustrativa gerada por IA.


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