Para Quem Tem Pressa
Pesquisadores da Universidade Estadual do Colorado e do Serviço Florestal dos EUA desenvolveram um dispositivo acoplado a coleiras para medir a fumaça de queimadas inalada por animais selvagens. O aparelho de código aberto custa cerca de US$ 100 e registra partículas finas (MP2,5) a cada 30 minutos. Testes iniciais com veados-mula apontaram que a qualidade do ar no campo pode variar até dez vezes em relação às estações fixas, abrindo caminho para proteger a fauna durante incêndios e planejar queimas prescritas.
Quando grandes incêndios cobrem regiões inteiras de fumaça, as pessoas buscam abrigo dentro de casa. Animais silvestres, no entanto, não contam com essa alternativa. Até então, quase nada se sabia com precisão sobre o nível real de poluentes que a fauna em áreas remotas inala durante esses episódios.
Para preencher essa lacuna, cientistas da Universidade Estadual do Colorado (CSU), em parceria com o Serviço Florestal dos Estados Unidos, desenvolveram um monitor de qualidade do ar acoplado diretamente a coleiras de rastreamento. Batizado de smoke logger, o equipamento mede as partículas perigosas inaladas pelos animais e pode ser integrado a sistemas que já monitoram batimentos cardíacos e localização por GPS.
O projeto foi liderado pelo professor George Wittemyer, da CSU, pelo ecologista Mark Ditmer, do Serviço Florestal dos EUA, e pelo pesquisador de pós-doutorado Adam Parlin. Os detalhes técnicos e os dados iniciais foram publicados no periódico científico Methods in Ecology and Evolution.
Tecnologia aberta e de baixo custo
Com o aumento na frequência e na intensidade dos incêndios florestais na América do Norte, as plumas de fumaça que cobrem vastas extensões por semanas tornaram-se uma fonte crônica de estresse ambiental. Como as áreas selvagens raramente contam com estações fixas de monitoramento, entender o comportamento dos animais diante desse cenário era um desafio logístico.
O novo dispositivo contorna essa barreira com uma solução acessível. A equipe reaproveitou um sensor comercial com tecnologia a laser capaz de identificar material particulado fino com diâmetro igual ou inferior a 2,5 micrômetros (MP2,5) — partículas minúsculas associadas a danos respiratórios e cardiovasculares.
Alimentado por energia solar e voltado a mamíferos de médio e grande porte, o monitor registra os dados de poluição a cada 30 minutos. Por limitações de bateria e ausência de sinal de internet em áreas ermas, as informações ficam armazenadas localmente no aparelho até que a coleira seja recuperada. O projeto e a programação são de código aberto (open-source), e qualquer grupo de pesquisa pode construir a unidade gastando cerca de US$ 100 em componentes.
Poluição varia em microescala
Os testes práticos começaram com populações de veados-mula (mule deer) nos estados de Colorado e Utah. As medições revelaram que a qualidade do ar registrada junto aos animais diferiu em até uma ordem de grandeza — dez vezes para mais ou para menos — em comparação com os dados das estações convencionais mais próximas.
Embora os cervídeos monitorados não tenham enfrentado níveis perigosos de fumaça de incêndios florestais durante o período avaliado, os sensores demonstraram sensibilidade suficiente para captar até mesmo pequenos aumentos de poluição provocados pelo tráfego de veículos em animais que transitavam próximos a áreas urbanas.
A constatação reforçou que a exposição atmosférica é altamente localizada e reforça a necessidade de acompanhar os indivíduos diretamente no campo para compreender suas reações e identificar possíveis áreas de refúgio.
Apoio ao manejo e queimas controladas
A equipe agora busca parcerias com outros estudos na região oeste dos Estados Unidos para expandir o uso dos sensores em animais como pumas, cervos e alces. Sensores estacionários também foram posicionados na área de ocorrência da fisher da Sierra Nevada (Pekania pennanti), pequeno mamífero carnívoro ameaçado de extinção.
Além de proteger os animais durante queimadas e fumaças acidentais, a tecnologia promete aperfeiçoar o manejo florestal. Segundo Mark Ditmer, conhecer os locais e momentos exatos em que a fumaça alcança a fauna permitirá calibrar o calendário de queimas prescritas — ferramenta essencial de prevenção a incêndios —, evitando a exposição desnecessária das espécies em períodos ou habitats mais sensíveis.
fonte/crédito: Imagem destacada ilustrativa gerada por IA.
Methods in Ecology and Evolution — DOI 10.1111/2041-210x.70420 — https://doi.org/10.1111/2041-210x.70420
