Após quase perder o registro da marca rapadura para uma empresa alemã, usineiros do Ceará reinventam um dos mais antigos produtos do Brasil
Em meados da década passada, uma notícia mexeu com os nervos de muitos nordestinos e de quase todos os cearenses: a empresa alemã Rapunzel Naturkost AG havia registrado a marca rapadura como se fosse sua em 1989 na Alemanha e, em 1993, nos Estados Unidos. Quando essa informação chegou ao Brasil, por volta de 2005, gerou reações acaloradas. Pequenos produtores protestaram da forma que podiam e entidades como a Ordem dos Advogados do Brasil – provocada pela seccional cearense – e o Ministério das Relações Exteriores entraram na briga para tirar dos alemães a exclusividade sobre o nome comercial da rapadura.
Pressionada, a empresa Rapunzel recuou e a marca deixou de pertencer aos alemães – que jamais cultivaram em escala comercial a cana-de-açúcar, matéria-prima da rapadura. Esse episódio, contudo, teve aspectos positivos: incentivou a articulação de várias entidades brasileiras na defesa de uma “marca” que se confunde com a criação do país e serviu para revalorizar um produto importante na vida dos sertanejos, seja do ponto de vista econômico ou como fonte alimentar (a rapadura é rica em calorias, possui sais minerais e até vitaminas).
Junto com o açúcar e a cachaça, é considerada um dos primeiros produtos da indústria no Brasil – levando em conta que o pau-brasil e os minérios eram atividades basicamente extrativistas. Na prática, a rapadura era uma forma criativa de concentrar o açúcar e facilitar seu transporte, diminuindo o problema da umidade dos porões dos navios. Para se ter ideia, os primeiros relatos da produção de cana e do funcionamento de engenhos remontam à primeira metade do século XVI, na então Capitania de Pernambuco. De lá a atividade se espalhou por outras regiões do Nordeste e do país e ainda hoje representa muito para os sertanejos nordestinos.
Estima-se que quase 70% da rapadura produzida no Brasil seja processada no Nordeste. Parte expressiva é fabricada no Ceará, principalmente nas regiões do Cariri, Serra Grande e Litoral Leste – mais precisamente numa área próxima a Fortaleza que engloba quatro municípios (Aquiraz, Pindoretama, Cascavel e Pacajus) e que chegou a concentrar mais de 150 engenhos. “Na minha infância, cada sítio tinha de ter seu próprio engenho para produzir rapadura”, relata João Benício, do Engenho Três Irmãos, de Aquiraz, distante 40 quilômetros da capital.
Benício se considera um dos pioneiros na fabricação da “rapadura temperada” – aquela adicionada de frutas, ervas e amêndoas e que criou um novo mercado para esse produto secular. “Há alguns anos, o negócio estava meio parado. Então, um dia comprei um surrão (saco) de tangerina, passei a casca no liquidificador e misturei com o mel da cana. Ficou bom, mas não tinha a cor amarela da tangerina. Depois passei a fazer rapadura com jaca, que foi um sucesso. Outros engenhos também começaram a fazer experiências e, assim, a coisa foi crescendo”, explica.
Quase em frente ao Três Irmãos, separados apenas pela rodovia estadual CE-040, o Engenho São Luiz é um exemplo dessa tendência de adicionar novas formas, cores e sabores ao produto tradicional. Lá são fabricados mais de 30 tipos de rapadura temperada: com orégano, milho verde, menta, gengibre, ervas finas, castanha, coco, mamão ou queijo, entre outros.
“Atualmente, um dos sabores mais procurados é o temperado com pimenta malagueta. Temos encomendas até de outros Estados”, diz Lindalva Pereira, sócia no negócio que é administrado em família.
Os engenhos da região também estão inovando no formato do produto. A rapadura tradicional, com aspecto de tijolo e que geralmente pesa 1,4 quilo, foi desmembrada em diversos tamanhos – algumas pesando apenas 10 gramas. “Essas, que mais parecem um bombom, são muito compradas para servir como sobremesa da merenda escolar por muitas prefeituras”, observa dona Lindalva.
Font: Revista Globo Rural – Por Darlan Moreira & Fotos Jarbas de Oliveira, de Pindoretama (CE)
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