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Boi ao molho madeira

POR ELIANE SILVA

 Em Santa Rita do Pardo (MS), bois pastam tranquilamente nos 3.700 hectares da Fazenda Santa Vergínia em meio à floresta de eucaliptos. Em Paracatu (MG), o gado divide 200 hectares da Fazenda Santa Rosa com clones de árvores para serraria. Antes, na mesma área havia arroz e depois soja. Em Cachoeira Dourada (GO), nos 270 hectares da Fazenda Boa Vereda, onde também havia soja e milho, o cenário é o mesmo: o rebanho aproveita a sombra da floresta. São três exemplos em três Estados diferentes de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), que avança pelo país todo, com o apoio da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária). Um dos grandes desafios para quem investe na nova técnica é o destino da madeira.

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A proximidade das indústrias de celulose Fibria e El dorado, em Três Lagoas (MS), foi o atrativo para o grupo catarinense Brochmann Pollis, que administra a Santa Vergínia. Na fazenda de 30.000 hectares, o projeto de integração começou há dez anos em 200 hectares. As áreas antes ocupadas pela cana foram preparadas para receber o gado e as árvores. “O projeto nasceu para beneficiar a pecuária e veio crescendo de área ano a ano graças à parceria com a indústria”, diz o gerente José Albino Zacarin, que trabalha na propriedade há 30 anos. No total, a fazenda tem 8.000 hectares de eucalipto e 16.000 de pecuária.

A maioria da madeira vira celulose na fábrica da Fibria em Três Lagoas, que fica a 100 quilômetros. Uma parte do eucalipto citriodora é tratada em autoclave na fazenda para uso próprio e venda para terceiros. “Sabemos que madeira para serraria agrega mais valor, mas o produtor tem de esperar até 15 anos para o corte”, explica Zacarin.

Já na Santa Rosa, em Paracatu, a ILPF começou há sete anos em 80 hectares, graças ao incentivo do governo federal. Três anos depois, já estava implantada em 200 hectares. O plano é vender a madeira para uma serraria da região. A proprietária e zootecnista Rovena Detina Petroll conta que, no primeiro ano, plantou arroz, no segundo, soja, e aí entrou com gado e clones de eucalipto. “Primeiro, fiz uma pesquisa de mercado para saber o destino da madeira. Vou esperar 12 anos para cortar as árvores, mas, enquanto espero a floresta crescer, vou lucrando com os bois”, diz ela.

O projeto de implantação, feito pela empresa de consultoria Campo, foi financiado pelo programa Agricultura Baixo Carbono (ABC), com o objetivo de fomentar a formação de florestas na região. “Ofereceram para muita gente, mas só eu aceitei. A implantação não é barata, cerca de R$ 5 mil por hectare com mudas, adubos, plantio. Mas o investimento já é amortizado no primeiro ano com a venda do boi.”

Rovena diz que cometeu muitos erros no processo, mas foi aprendendo ano a ano. No primeiro plantio de árvores, sem conhecer a dinâmica das mudas, perdeu um terço das 27 mil compradas. Além disso, deu espaçamento de 9,5 metros entre as mudas, o que reduziu a produção de capim para o gado.

No segundo plantio, não perdeu mudas e optou por dobrar o espaçamento e fazer duas linhas de árvores. Conseguiu mais luz, capim de melhor qualidade e conforto térmico para os animais, que pastam hoje em áreas com temperatura de menos 7 oC em relação aos terrenos sem sombra. “Estou muito otimista. Aprendi bastante no processo, venho amortizando os gastos e, além disso, a floresta é muito bonita. Agora, espero o tempo de cortar as árvores, mas já estou programando o replantio.”

Cultura permanente

Considerado um pioneiro e “embaixador” da ILPF, Abílio Pacheco, engenheiro florestal, pesquisador da Embrapa Cerrados e também produtor rural, resolveu resistir ao avanço das usinas de cana e testar a integração em sua própria fazenda, a Boa Vereda, que fica a 250 quilômetros de Goiânia e é administrada à distância. “As usinas de cana chegaram à região oferecendo R$ 1.000 por hectare, um valor muito atrativo pelo arrendamento das terras, que eram ocupadas pela pecuária, que é uma atividade segura, mas de baixa rentabilidade. Não gosto de cana e, como pesquisador da Embrapa, senti que tinha uma responsabilidade de demonstrar que podíamos ter um sistema competitivo com a cana.”

Pacheco começou então a estudar a ILPF e, há oito anos, implantou o sistema na fazenda herdada dos sogros. No primeiro ano, plantou soja e eucalipto. No segundo, entrou com o milho, colheu quatro meses depois e iniciou, então, a criação de gado em paralelo com a floresta na área, abrindo um pasto por ano. “Quando você aduba o pasto, indiretamente aduba os eucaliptos, que tiram os nutrientes mais do fundo da terra. Com isso, passei de uma produção de 4 arrobas por hectare para 18 arrobas. Enquanto consigo R$ 1.001 líquidos por hectare com a pecuária e a madeira, a cana está pagando R$ 750 por hectare.” Segundo o pesquisador-produtor, os custos operacionais da pecuária também são mais baixos no sistema ILPF na comparação com o convencional. A madeira vai ser vendida para serrarias, que pagam em torno de R$ 1.200 o metro serrado – são R$ 60 pelo metro da madeira para energia.

“Não entendo por que o pecuarista só cria bois. No sistema integrado, a carne ganha um selo de qualidade, a madeira paga mais que o boi, a fazenda fica muito mais bonita e você começa a observar tatus e outros animais na área. Descobri na prática que é possível colocar a natureza para trabalhar por você.” No início de outubro, Pacheco deu esse recado durante uma palestra em Nova York, a convite do governo americano, reforçando que, além do maior conforto térmico para os animais, a ILPF aumenta o sequestro de carbono, mitigando os efeitos do metanoemitido pelos bovinos, e ajuda na conservação do solo e da água.

Agora, Pacheco pretende implantar a ILPF em outra fazenda da família na região, a Macaúba, de 350 hectares. Ele plantou, em março, 40 hectares de soja e eucalipto. Logo, vai entrar com milho e braquiária. Depois, o gado. “Faltava dinheiro para investir na Macaúba, mas descobri a vantagem de se ter pouco dinheiro: você vai fazendo aos poucos e implantando melhorias a cada ano.”

A Boa Vereda já é referência para outros produtores goianos, como o pequeno produtor de leite José Ferreira Pinto, de Quirinópolis, que está implantando a ILPF com madeira e feijão, sob assistência da Embrapa e da Emater. Já Marcelo Ribeiro, de Nova Crixás, que tem lavoura e pecuária há 14 anos, em uma fazenda de 2.500 hectares, está integrando a floresta neste ano em uma área de 30 hectares.

Fonte Revista Globo Rural
gustavo henrique leite mota piesanti

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