Pequenos agricultores do município de Apuí, distante pouco mais de 400 km ao sul de Manaus (AM), estão investindo na cafeicultura para a geração de renda. Por meio de uma parceria com uma organização não-governamental, vem sendo desenvolvido e comercializado um café 100% conilon produzido na Amazônia em um sistema agroflorestal, baseado em princípios de manejo sustentável e de integração com a natureza.
“Nossa ideia é combater o desmatamento na Amazônia dando uma opção de desenvolvimento econômico. Sem isso, apenas tapamos o sol com a peneira”, defende Mariano Cenamo, pesquisador sênior do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam), instituição que atua na região amazônica desde 2006 e é parceira dos cafeicultores.
O projeto, chamado de Café em Agrofloresta, começou em 2012. De certa forma, é um resgate da cafeicultura na região, onde, nas palavras do pesquisador, há um “vazio institucional” de apoio à agropecuária. Situado às margens da rodovia Transamazônica (BR-230), Apuí foi constituído na década de 1980, emancipado de Novo Aripunã. A população atual do município, segundo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de pouco mais de 21 mil pessoas.
A fundação da cidade está ligada à política federal de formar assentamentos rurais para a ocupar a região amazônica. O Projeto de Assentamento Rural do Rio Juma, onde Apuí está localizado, foi criado para instalar 7,5 mil famílias em uma área de cerca de 680 mil hectares. “De início, o governo tentou usar o café, o cacau e a pimenta do reino. Mas o café se adaptou melhor”, conta Cenamo, do Idesam.
Na década de 1990, entretanto, dificuldades levaram a um enfraquecimento da cafeicultura na região e sua substituição pela pecuária. “Os cafezais duraram um ciclo de 10, 12, 15 anos. Depois foram trocados por pastos”, acrescenta ele.
Os produtores rurais com quem a ONG trabalha estão entre os que o pesquisador chama de “resilientes”, aqueles que, mesmo na dificuldade, resolveram permanecer na região. “Fizemos um diagnóstico e percebemos que o café tem maior potencial de agregar receita e modernizar a produção”, diz Cenamo.
A partir dessa avaliação, 30 agricultores foram selecionados. Todos sem acesso à assistência técnica nem a crédito para tocar a lavoura, mas que já tinham algum contato com a atividade. Apoiado por um fundo que financia projetos na Amazônia, o Idesam iniciou o investimento no plantio e no desenvolvimento da produção, em um processo chamado de “transição agroecológica”.
Cada agricultor recebeu apoio para recuperar um hectare de cafezal, reforçado com plantas novas. De acordo com a ONG, os tratos culturais envolveram correção do solo, aplicação de biofertilizantes e a instalação de armadilhas “naturais” contra a broca-do-café. As propriedades receberam também terreiros para a secagem dos grãos.
A base do sistema produtivo é a conversão de lavouras tradicionais em sombreadas, em consórcio com espécies amazônicas. Entre as opções, plantas frutíferas, como o guaraná e açaí, ou que proporcionam a exploração da madeira, como mogno e cedro. A intenção, explica Mariano Cenamo, é conciliar a recuperação da floresta com a produtividade do café.
“Geralmente, projetos de café sombreado ajudam apenas a melhorar a qualidade do produto. Mas, com as condições da Amazônia, temos observado também a influência sobre a produtividade, que aumentou”, comenta o pesquisador.
Segundo dados do próprio Idesam, em 2011, o rendimento médio estava em 9 sacas por hectare. Em 2012, passou para 13 sacas, 17 sacas em 2013, até chegar a 24 sacas por hectare em 2014, o recorde registrado até agora entre os participantes do Café em Agrofloresta.
Da recuperação de lavouras degradadas e pouco produtivas, nasceu o Café Apuí Agroflorestal. Lançada em 2015, três anos depois do início do projeto, a marca atingiu vendas de 18 mil pacotes de 250 gramas de café torrado e moído no primeiro ano de divulgação, conforme o Idesam. Atualmente, segundo o Idesam, o produto está em Manaus e alguns pontos de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Para viabilizar a comercialização, foi feita uma parceria com um torrefator local, cuja estrutura recebeu investimentos para desenvolver a embalagem e colocar o produto industrializado no mercado. Mariano Cenamo explica que o empresário compra toda a produção agroflorestal por um preço, em média, R$ 30 por saca superior e pode vender também a valores diferenciados.
O contrato entre a indústria e os agricultores é renegociado a cada ano, com a mediação dos profissionais do instituto. “Na primeira safra, o torrefator não conseguiu vender todo o volume e utilizou a sobra para misturar com sua outra marca e não perder a produção. Mas o café agroflorestal é feito só com a produção desses agricultores familiares”, garante Cenamo.
Nas contas do Idesam, a renda média das famílias do projeto cresceu mais de 200% com o projeto. Até 2011, considerando um preço de R$ 200 a saca e a produtividade média (9 sacas por hectare), o valor foi de R$ 1,8 mil. Entre 2012 e 2015, com o café a R$ 230 e um rendimento médio de 17,35 sacas em cada hectare plantado, o valor chegou a R$ 3,96 mil.
Os dois últimos anos foram de produtividade menor do café agroflorestal em Apuí. Parte é explicada pela renovação de cafezais e parte pelo clima. A queda em 2015, já prevista em função do processo de recepa (poda feita no tronco com o objetivo de revitalizar a planta), foi agravada em 2016, quando a região foi atingida por uma forte estiagem.
Para 2017, a expectativa do Idesam é recuperar o rendimento no campo. E, a partir dos resultados das áreas já implantadas, aumentar a participação de pequenos agricultores. “A meta é retomar a produção sem a necessidade de abrir novas áreas de floresta. A ideia é de que os agricultores envolvidos sejam referência e o projeto possa crescer”, o coordenador de Agroecologia do instituto, Ramom Morato.
Outro objetivo neste ano é fazer com que o café agroflorestal de Apuí seja certificado com o selo Produto Orgânico Brasil. Segundo Morato, a certificação deve ser obtida através de um movimento de incentivo à agroecologia que visa oferecer alternativas de menor custo e maior controle social sobre a origem da produção.
“Nessa modalidade de certificação, técnicos, pesquisadores, universidades, produtores e consumidores participam de uma avaliação de conformidade que garante que o produto de fato tem origem orgânica”, explica.
Morato acrescenta que a intenção é ter toda a cadeia produtiva certificada. A torrefadora que compra o café agroflorestal também está em fase de auditoria de certificação orgânica.
Fonte:RevistaGloboRural
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