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Enfrente a mosca

Um dos aspectos do cultivo do sorgo a que o produtor deve estar atento é o da ocorrência de pragas. Desde o plantio até a colheita, um grande número de espécies de insetos pode estar associado à cultura do sorgo. Entretanto, apenas algumas espécies são fitófagas (alimentam-se de plantas) e somente poucas causam dano econômico à cultura. Portanto, é importante visitar periodicamente a lavoura para identificar as espécies que são nocivas à cultura e adotar medidas de controle quando necessário, pois o número de insetos nem sempre está relacionado com o dano na planta. Fatores como o vigor da planta, estádio de desenvolvimento, umidade do solo, período do ano, abundância de predadores e parasitas são igualmente importantes.

A mosca-do-sorgo, até recentemente conhecida por Contarinia sorghicola, teve seu nome científico modificado para Stenodiplosis sorghicola (Coquillet) (Diptera: Cecidomyiidae). Esta é uma das pragas-chave para a cultura em todas as regiões do mundo onde se cultiva o sorgo. 

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As larvas da mosca-do-sorgo causam danos diretamente no grão em formação e as espiguetas infestadas simplesmente não produzem grãos. A população do inseto pode chegar a níveis muito altos e as perdas na produção de grãos podem ser totais.

Aspectos biológicos

A mosca-do-sorgo é um pequeno díptero de cor salmão, medindo cerca de 2 mm de comprimento. Os adultos emergem das panículas infestadas ou do solo (provenientes de larvas em diapausa) ao clarear do dia. Depois da cópula o macho morre e a fêmea migra para área onde existam plantas do gênero Sorghum, cultivado ou selvagem, em florescimento. Através de seu longo ovopositor, a fêmea introduz o ovo dentro da flor, quando esta se abre para a polinização. A fêmea vive apenas um dia. Dois a três dias após a postura, eclodem as larvas que passam a se alimentar na base do grão em formação, provocando o chochamento da espigueta. Dentro da mesma espigueta, a pupa desenvolve-se dando origem ao adulto. Dependendo das condições ambientais, o ciclo completo do inseto varia de 11 a 30 dias.

Os danos são causados pelas larvas ao se alimentarem do grão em formação. Entretanto, o controle dessa praga na fase de larva é praticamente impossível. A larva fica protegida dentro da espigueta do sorgo. Portanto, o controle efetivo da mosca depende da integração de várias estratégias para reduzir os danos no sorgo cultivado. Assim, são recomendadas práticas culturais como o plantio cedo, o que permite o florescimento do campo antes da ocorrência do pico populacional da mosca e conseqüentemente, evita maiores perdas. Todas estratégias que propiciam floração uniforme são desejáveis, como o bom preparo do solo, plantio num curto período de tempo, uniformidade na profundidade de plantio (evitar os plantios a lanço), uso de cultivares de um único ciclo e preferencialmente de um só híbrido, são estratégias eficientes para evitar a multiplicação da mosca dentro do próprio campo, reduzindo os danos causados pela praga. A eliminação do sorgo selvagem nas áreas próximas ao plantio comercial, pelo cultivo intenso ou pelo uso de herbicidas, reduzirá também a população da mosca. O eficiente controle químico da mosca-do-sorgo depende de vários fatores; entre eles, de um acompanhamento freqüente da lavoura durante o período de florescimento, da utilização de produtos adequados e da aplicação na época correta para o controle. Esse tipo de ação visa eliminar os adultos que estão ovipositando nas panículas em florescimento. 

Quando controlar

O levantamento para determinar a necessidade de controle deve ser iniciado quando 25 a 30% das panículas apresentarem flores abertas. Para determinar a presença da mosca, amostras de panículas devem ser observadas diretamente ou através do uso de um saco plástico transparente. Neste caso, deve-se ensacar a panícula com golpes rápidos para aprisionar os insetos que nela estão pousados. Em seguida, deve-se fechar a boca do saco plástico junto ao pedúnculo com um cordão ou um pedaço de arame. Finalmente, deve-se cortar a panícula e levá-la para local adequado onde a contagem do número de adultos possa ser computada. Este método do saco plástico é mais preciso mas é também mais trabalhoso. Em qualquer dos métodos de levantamento, o resultado de uma fêmea por panícula, em média, indica o nível de controle. Os inseticidas devem ser aplicados em pulverização. Os levantamentos e as possíveis pulverizações devem continuar com intervalo de três dias, durante todo o período de florescimento. 

Podem ser utilizados inseticidas carbamatos, piretróides e fosforados, tendo-se o cuidado de verificar as recomendações do rótulos dos produtos, pois alguns fosforados podem ter ação fitotóxica para o sorgo.

Mosca na safrinha

Destaque deve ser feito para os plantios de segunda época (safrinha) realizados nas regiões Sudeste e Centro-Oeste. Em linhas gerais, a população da mosca inicia-se a partir dos insetos que passam o inverno em diapausa e se multiplicam nos hospedeiros que florescem na primavera atingindo o pico populacional no final do verão. Com a queda da temperatura e da precipitação, a população declina chegando a zero nos meses mais frios e/ou secos. Não se pode desprezar também o papel da comunidade de inimigos que no final do verão faz uma pressão significativa sobre as espécies-praga em geral. Nos plantios de safrinha, realizados no final do verão, o florescimento do sorgo ocorre em meados do outono, quando a população já está abaixo do nível de dano econômico. Por isso essa espécie-praga tem menos importância nessas condições, exceto em microrregiões específicas onde este ciclo pode ser quebrado permitindo explosões populacionais, como em regiões onde o inverno é quente e se utiliza irrigação permitindo a sobrevivência de hospedeiros da mosca durante o ano todo. 

De qualquer forma, vale fazer os levantamentos populacionais para evitar surpresas.

José M. Waquil
Embrapa Milho e Sorgo

* Este artigo foi publicado na edição número 02 da revista Cultivar Grandes Culturas, de março de 1999.

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