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Embarques globais de etanol devem cair

A estagnação que afeta o setor de etanol no Brasil não é um fenômeno isolado. Globalmente, os países produtores pretendiam transformar o biocombustível em uma commodity global, mas tiveram que se contentar com os mercados domésticos, basicamente limitados a Brasil e EUA. As exportações globais devem cair em 2014 pelo terceiro ano consecutivo a níveis só vistos há oito anos, início do “boom” do biocombustível, e a produção global também mostra sinais de estagnação. O projeto “etanol commodity global” foi oficialmente enterrado pela Ietha, associação criada com esse objetivo e que anuncia este ano sua extinção.

 

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Desde o fim de 2005, quando o então presidente americano George Bush anunciou metas crescentes de uso de biocombustíveis, muitas expectativas foram criadas e bilhões de dólares investidos. Somente no Brasil, foram US$ 30 bilhões na construção de mais de cem usinas – valor que não considera os aportes na área agrícola (implantação de canaviais).

 

Desde então, as exportações globais continuaram pífias, equivalentes a 6% da produção global. Em 2014, devem voltar a cair. A previsão da consultoria FO Licht é de que os embarques mundiais do biocombustível serão de 6,778 bilhões de litros neste ano. Além de uma queda de 10% ante 2013, o volume é praticamente o mesmo do registrado há oito anos.

 

Tradings no entanto, projetam um volume ainda menor, na casa de 4 bilhões de litros. “O Brasil deve embarcar de 1,5 bilhão a 1,7 bilhão e os EUA, outros 2,5 bilhões de litros. Não haverá mais nada significativo em outros países”, afirma um trader. Em 2008, o Brasil sozinho chegou a exportar o recorde de 5,124 bilhões de litros, mas os volumes nos anos seguintes seguiram erráticos. No ano passado, o país embarcou 2,9 bilhões de litros.

 

Emblemática nessa estagnação, está sendo extinta neste ano a associação criada em 2006 para fomentar a criação de um mercado livre global para o biocombustível, a Ietha (International Ethanol Association). Com 45 membros formados por representantes de toda a cadeia de etanol do país, desde a área produtiva (usinas nacionais e estrangeiras), importadores e de logística, a entidade tinha sede em São Paulo e por muitos anos tentou estabelecer regras e padrões globais para a negociação de etanol.

 

O presidente do conselho da Ietha, Tarcilo Rodrigues, diz que não há mais razão para a associação. “O objetivo era abir o mercado, mas ele se fechou ainda mais. Os problemas se multiplicaram”, explica.

 

Os EUA devem confirmar nos próximos dias o novo mandato que prevê redução no uso de etanol no país, num claro sinal de estagnação em sua produção – assim como vem ocorrendo com o Brasil há pelo menos três anos. Para os biocombustíveis avançados, categoria na qual o etanol de cana do Brasil se encaixa (e compete com o biodiesel), o governo americano deve reduzir em 41%, a 2,2 bilhões de galões (8,3 bilhões de litros), o uso no país – inicialmente projetado para ser de 3,75 bilhões de galões em 2014.

 

A própria Comunidade Europeia, grande credora de políticas de sustentabilidade, adiou a incorporação de combustíveis renováveis à sua matriz de transporte e manteve suas tarifas de importação de etanol intactas – que variam de 173 a 193 euros por metro cúbico. “As barreiras não tarifárias também foram mantidas. Apesar do esforço da Ietha em criar uma padronização, a Comunidade Europeia manteve-se por todos esses anos impassível diante da proposta de criar um padrão de etanol anidro que permitisse um percentual de água superior a 0,3%, uma vez que o padrão no Brasil era de 0,7% e nos EUA, de 1%”, afirma Rodrigues.

 

A grande questão, diz ele, é que as motivações são sempre econômicas. O “boom” de investimentos em etanol coincidiu com a guinada para cima dos preços do petróleo, que saiu de US$ 60 para US$ 140. “O mundo tem critérios estritamente econômicos. Preocupação ambiental existe na Suécia e na Dinamarca”, ironiza Rodrigues.

 

A discussão entre alimentos e combustíveis também enfraqueceu o apelo dos biocombustíveis e a crise econômica de 2008 ajudou a enterrar as expectativas de avanço desse mercado. Para completar, houve ainda a descoberta do gás de xisto nos EUA, que está se mostrando uma energia de menor custo.

 

Fonte: Fabiana Batista, do Valor Economico.

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