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Coco babaçu vira sorvete, azeite e até calçado e carvão

Ainda não existe manejo planejado da palmeira. Fruto pode ser aproveitado comercialmente desde a castanha até a casca.

Algumas palmeiras se transformaram em negócios importantes na agricultura brasileira. É o caso do coqueiro, do dendê, do açaí, da pupunha. Mas por enquanto não existe cultivo comercial nem manejo planejado do babaçu nativo, apesar do seu potencial enorme.

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O coco é o principal produto da palmeira. Da polinização das flores até o fruto maduro, são nove meses – uma gestação. E, no mundo feminino das quebradeiras, o surgimento do cacho é descrito como um parto.

“Quando ela abre a cachopa para sair o cacho, ela geme. A gente escuta a dor”, diz Maria do Rosário Soares Costa Ferreira, presidente da cooperativa interestadual das mulheres quebradeiras.

“Tem muito nela [na palmeira] que tem em nós: os seios, o coco tem a auréola e o bico”, emenda Rosalva Silva Gomes, da assessoria técnica do regional de Imperatriz, no Maranhão.

Além da casca, o coco tem o epicarpo, a camada externa. Ela é seguida pelo mesocarpo, rico em amido. Depois vêm o endocarpo, que vira artesanato e carvão, e a amêndoa, de onde se extrai o óleo.

O óleo pode ser usado como tempero, para fazer sabão, sabonete, detergente. E mesmo depois de cair e apodrecer, o babaçu ainda tem serventia: vira adubo para a horta.

“É uma riqueza muito grande”, diz a agricultora e quebradeira Maria Querubina da Silva Neta, diretora do sindicato de trabalhadores rurais.

Tudo se aproveita

“A gente pega os cocos, tira azeite, faz sabão, veste, calça as crianças, carvão. Tudo é de lá”, diz emocionada a quebradeira Maria Piedade Nascimento Lima Maia.

Esse uso integral do coco não vem de muito tempo. Antigamente, o babaçu era quebrado no campo e só a amêndoa era vendida.

O quilombo Bom Jesus, no município de Matinha, Maranhão, produz azeite de babaçu. Em 2004, as quebradeiras do local se uniram e conseguiram fazer uma fábrica.

Graças a um projeto com a iniciativa privada, a casa onde ela funciona foi reformada, azulejada há dois anos. Há um ano, as mulheres ganharam um forno e uma prensa – que estão parados, porque a energia do tipo que eles precisam, própria para a indústria, não chega na comunidade.

A fábrica tem capacidade para processar 1 mil litros mensais de azeite, mas por enquanto faz menos de 100 litros mensais, segundo a presidente da Cooperativa Interestadual das Mulheres Quebradeiras, Maria do Rosário Soares Costa Ferreira.

O processo de fabricação do azeite é artesanal: as amêndoas torradas e trituradas vão para a panela.

E para o produto render, dizem os antigos, é preciso estar cercado de boas energias. Olho gordo estraga o óleo.

O líquido dourado é vendido a R$ 15 o litro. A fábrica também produz farinha de mesocarpo, a R$ 17 o quilo. O principal comprador é o Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA), do governo federal.

As quebradeiras seguem na luta para agregar mais valor à amêndoa.

Em Itapecuru-Mirim há outra fábrica de produtos à base de babaçu. Lá, energia elétrica não é problema.

“A gente tá produzindo 400 quilos de pães por mês, 200 de biscoito e 350 quilos de sorvete”, conta Rosélia de Jesus Correa”, gerente da agroindústria.

A fábrica também vende a produção para o PAA e para o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) da rede municipal e estadual. O problema é que o recurso para esses programas vem caindo muito nos últimos anos, e hoje já quase não existe lucro para dividir entre as mulheres.

Viver do babaçu é o sonho de mais de 200 quebradeiras do município. “Hoje nós temos o entendimento de que o mesmo valor que aquela mulher que está lá debaixo da palmeira e quebra o coco, tem toda essa cadeia [de fabricação de produtos]. Se aquela não funcionar, essa aqui não funciona”, diz Maria Domingas Martins, presidente da Associação das Quebradeiras de Itapecuru.

E não funcionam também muitas indústrias que dependem da cata do coco, como uma produtora de carvão de Tocantinópolis, no Tocantins. Num ambiente de muita fumaça e pó preto, o babaçu vira carvão ativado.

Ao longo do ano, a fábrica utiliza cerca de 30 mil toneladas de coco. Tudo vem do extrativismo, são aproximadamente 1,5 mil famílias catando todo esse babaçu na natureza.

No terreno da fábrica fica um dos únicos plantios de babaçu do Brasil, feito há cerca de oito anos com a ideia de encontrar variedades mais produtivas.

“Deu coco com menos tempo, com 3, 4 anos já estava produzindo. Uma planta normal produz depois de 10”, diz o supervisor de produção João Ferreira.

Mas mesmo com resultados promissores, o projeto não avançou para a segunda fase.

“Do meu ponto de vista, o melhoramento genético é a saída para o babaçu: passar do extrativismo para o cultivo racional. O que falta para isso é decisão política”, afirma o agrônomo da Embrapa José Mário Frazão, que orientou o plantio.

Parado no tempo

O mundo do babaçu parece parado no tempo. Em busca de avanços, Frazão vem desenvolvendo máquinas para facilitar a quebra do coco. Uma delas descasca e retira o mesocarpo, a outra quebra o coco.

O agrônomo trabalha com a perspectiva de quebrar em torno de 8 toneladas de babaçu por dia. “Elas não vão deixar de ser quebradeiras de coco, vão passar a aproveitar o babaçu integralmente, de uma forma mais racional e com um trabalho muito menor”, diz.

Os equipamentos ainda estão em teste. A falta de investimento em pesquisa é o principal entrave. Mas Frazão promete que não vai deixar a Embrapa sem ver tudo funcionando.

Histórias que tocam

É difícil não ser tocado pelas quebradeiras e suas histórias. Muitas delas sofridas, como a de Creusa Matos dos Santos.

Ela teve dez filhos, dos quais nove estão vivos. E conta que passou fome.

“Eu trabalhava na casa de uma senhora. Quando eu ia pra casa, meio-dia, levava uma coquinha para dar para meus filhos. O que morreu dizia assim: mãe, a senhora não come? Eu dizia: não, meu filho, eu me sustento com a palavra de Deus”.

A filha de dona Creusa também trabalha na quebra do coco, mas já tem uma vida melhor e um sorriso no rosto.

“Hoje tenho mais oportunidades do que ela, porque ela não estudou e eu já estudo. E mais para frente quero fazer faculdade”, diz.

Mas garante que vai continuar ajudando a quebrar coco quando estiver pelo quilombo. É evoluir sem abandonar o babaçu.

Fonte: Globo Rural.

Douglas Carreson

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Douglas Carreson

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