Cavalo Pantaneiro é tema de lançamento da Embrapa

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Marcado para o dia 02 de junho em Poconé (MT), o lançamento do livro “Cavalo Pantaneiro: rústico por natureza” começou um dia antes no local conhecido pelos criadores locais como “barraca dos apaixonados”. A equipe da Embrapa Pantanal, que viajou de Corumbá (MS) até a cidade para o evento, achou o nome curioso. Logo, porém, a referência ficou clara: aquele era o lugar onde os apaixonados por cavalo Pantaneiro se reuniam. E foi por meio desse contato informal, das conversas mediadas pelo típico churrasco pantaneiro, que teve início a divulgação do livro que celebra uma das mais importantes raças equinas brasileiras.

“Esse é o resultado de 27 anos de pesquisas. Desde a implantação do nosso núcleo de conservação do cavalo Pantaneiro na fazenda Nhumirim, em 1988, nós começamos a desenvolver esse trabalho. E é um livro que não fala só sobre isso: ele aborda toda a nossa interação com a Associação Brasileira dos Criadores de Cavalo Pantaneiro (ABCCP), com os próprios criadores, com os peões, trabalhadores do campo, alunos, técnicos, pesquisadores da Embrapa e de outras instituições. É um livro de todos nós, o que nos deixa muito felizes. Por ser multidisciplinar, todos puderam contribuir”, diz Sandra Santos – pesquisadora da Embrapa Pantanal que editou a publicação com a pesquisadora Suzana Salis e com o chefe adjunto de Transferência de Tecnologia da mesma unidade, José Aníbal Comastri Filho.

História e tradição

No Pantanal, é muito comum que os criadores desses animais aprendam o ofício com a família, passando o conhecimento sobre o trabalho entre as gerações. É o caso de Vitor Hugo Moura, que gerencia a fazenda Promissão. Ele conta que recebeu de seu pai, Paulo Moura, a incumbência de cuidar da criação de cavalos Pantaneiros que já soma 32 anos. Paulo recebeu, no passado, o mesmo pedido de seu pai. Hoje, Victor pensa no dia em que passará o comando do trabalho para os pequenos Lorenzo e Joaquim. “Meu filho, que está com um ano e dez meses, ama esses animais. Briga para vir na fazenda, ver o cavalo dele”, diz. “É uma paixão, é uma família, é a união do pantaneiro e de todos os criadores. Quem ganha com isso é a raça, que tende a crescer”.

Airton Silva Campos, criador de cavalos Pantaneiros desde 1970, viu a história do animal se desenvolver durante todos esses anos. “Essa valorização da raça começou há uns 10, 15 anos. Começamos a deslanchar nas exposições”, diz. “Iniciei o trabalho com esses cavalos há 40 anos porque eram os únicos que eu conseguia usar na região, ajustados às condições. Não adiantava trazer outras raças porque elas não se adaptavam. O Pantaneiro se criou aqui”, afirma. “Tanto na água quanto na seca, ele trabalha do mesmo jeito. Quando o sujeito pega um cavalo Pantaneiro, leva para a propriedade dele e vê o resultado, não larga mais!”, conta, rindo.

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Para o presidente da ABCCP, Paulo Freitas, a proximidade dos criadores pantaneiros com a raça é um diferencial na criação dos animais. “Nós conhecemos o potencial deles, montamos, fazemos o trabalho de campo, de fazenda. E mesmo quando estamos no ápice da apresentação do cavalo, que são as nossas exposições, você consegue ver os criadores com a botina suja, chapéu na cabeça, trabalhando com os animais. Não há distanciamento. Há um prazer nesse trabalho”, afirma.

Rústico por natureza

O título do livro lançado pela Embrapa diz respeito a uma característica da raça muito conhecida pelos criadores: a rusticidade, consequência dos anos de seleção natural proporcionados pelo desafiador ambiente do Pantanal. “O custo da manutenção do animal é baixo. Usamos um sal mineral bom e, se você quiser dar um pouco de ração, pode usar o mínimo, só para dar um acabamento. O cavalo Pantaneiro é muito resistente, também, a ectoparasitas e endoparasitas. É um animal cujo custo-benefício é muito atrativo”, diz Vitor.

Em função dessas características, criadores da região investem para levar a raça a outras partes do país. É o que conta Rodolfo Gomes da Silva, criador desde 1971. “O que eu e várias famílias daqui fizemos foi levar esses animais para fora de Poconé. Nós dizíamos que o cavalo precisava atravessar o rio Bento Gomes (MT). Hoje, já temos núcleos no Pará, por exemplo”, afirma. “É fácil vender a ideia de criar o cavalo Pantaneiro porque ele é muito bom e, aos poucos, vem ganhando espaço – até por meio das provas de laço técnico, apartações. Eu acho que, daqui para a frente, a raça já vai navegar sozinha”.

O futuro do Pantaneiro

De acordo com a pesquisadora Sandra Santos, a capacidade do animal para suportar os extremos do Pantanal – que incluem altas temperaturas, longos meses de área alagada e um extenso período de seca – é notável. Portanto, é preciso assegurar que características como essa permaneçam. “A partir de agora, temos que desenvolver estratégias para que a raça continue sendo reconhecida, mas mantenha todo o valor funcional e adaptativo ao seu ambiente. Não podemos deixar que isso se perca com o incremento gerado pelo interesse econômico no cavalo Pantaneiro. Por isso, é muito importante que a gente continue trabalhando juntos”, afirma.

Segundo a pesquisadora, as parcerias com os criadores continuam para promover a diversidade genética da raça, desenvolver sistemas orientados de acasalamento e avaliar as características de adaptação, como a resistência dos cascos à umidade e a tolerância ao calor. José Comastri Filho ressalta a importância da atuação junto à sociedade para a realização desse trabalho. “O livro tem 50 autores. Nós tivemos uma aceitação muito grande, com parcerias em todos os níveis e setores – seja com pesquisadores das universidades, pecuaristas que trabalham com o cavalo, a população que gosta dos animais de modo geral ou institutos de pesquisa. Todos nos ajudaram e influenciaram, de alguma forma”, diz.

Para Sandra Santos, lançar o livro “Cavalo Pantaneiro: rústico por natureza” em Poconé, que é considerada o berço da raça, é uma demonstração de que esse animal tem tudo para ganhar o país – sem esquecer das origens. “É muito gratificante estar aqui onde tudo começou. Nós vemos toda essa família pantaneira lutando em meio a muitas dificuldades, enfrentando vários desafios. Tem que ter muita paixão, muita garra, muito amor pelo que faz para continuar”, diz Sandra. “Esse material é um retorno para essas pessoas. A gente sabe que o trabalho de conservação é fruto do esforço dos criadores. Nós contribuímos com estudos sobre a raça, ajudando a valorizá-la, e queremos mostrar, juntos, que o cavalo Pantaneiro é patrimônio de todo o Brasil”.

Fonte: Embrapa.


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