Categories: Cultura e Variedades

Chega de padecer no paraíso

Ganha força entre as mulheres com bebês pequenos o hábito de expor sem culpa as agruras da maternidade. Os relatos ajudam as mães a lidar com uma das fases da vida mais conturbadas e impregnadas de tabus.

Quando o parnasianismo celebrava o cotidiano de modo rebuscado e pomposo, nos estertores do século XIX, o poeta Coelho Neto nos ensinou que ser mãe era “desdobrar fibra por fibra o coração”. Foi assim durante boa parte do século XX, até que o piauiense Torquato Neto, prenhe de ironia, escreveu Mamãe, Coragem para que Gal cantasse no disco Tropicália, de 1968, com uma correção imposta pelos novos tempos: “Ser mãe é desdobrar fibra por fibra os corações dos filhos”. De lá para cá, com a chegada da mulher ao mercado de trabalho e a luta pela igualdade de gêneros, a maternidade desceu do altar intocável onde sempre esteve. Em tempo de redes sociais como caixa de ressonância de tudo aquilo que antes tínhamos vergonha de confessar, o mágico e indescritível momento de dar à luz um bebê, e por meio dele reinventar vidas, já autoriza desabafos, lamentos e até humor.

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Maternidade sem fantasia

Não há conto de fadas

“Quando Pedro nasceu, eu me sentia uma péssima mãe porque não conseguia amamentar. Além disso, tinha de lidar com a privação total da minha liberdade. Cinco meses depois, resolvi fazer um post no Facebook para desabafar. As coisas então foram se acalmando. Percebi que muitas mulheres haviam passado pela mesma situação. Devia ter feito isso antes. Eu me senti apoiada. Não há conto de fadas na maternidade.”

Stella Salton, 32 anos, empresária, mãe de Pedro, 1 ano.

É tudo trabalhoso

“No início, com a Maria Eduarda, minha filha mais velha, eu me sentia incapaz de protegê-la e de atender a cuidados básicos como dar banho em um corpinho tão frágil. Com a chegada de Rafael, estava mais tranquila, mas me sentia triste. Meu tempo tornou-se ainda mais curto. A maternidade é incrível, sei disso, mas é tudo muito trabalhoso.”

Mariana Martinez Mattoso Martins, 33 anos, empresária, mãe de Maria Eduarda, com 5 anos, e Rafael, 1 ano e 7 meses.

Essa é a maternidade de que falam?

“Sempre quis ser mãe. Mas quando a Maria Clara nasceu foi um baque. Pensei: essa é a maternidade de que falam? Ela me solicita toda hora. Dormir cinco horas sem interrupções é um luxo. Passar horas conversando com o meu marido ou ir ao restaurante também. Antes, tinha tempo para cuidar de mim. Hoje, meu banho dura minutos contados. É muito difícil, mas sei que tudo vai melhorar. É uma questão de tempo, espero.”

Juliane Amador Zogaibe Alkmin, 33 anos, coordenadora de planejamento, mãe de Maria Clara, com 3 meses.

Link da matéria original

FONTE: VEJA ONLINE. POR: NATALIA CUMINALE.

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