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Melhoramento genético em abelhas africanizadas

O melhoramento genético de abelhas Apis mellifera é uma ferramenta essencial para o bom sucesso da industria apícola. Porém, no Brasil as praticas de manejo necessárias para o estabelecimento de um programa de melhoramento produtivo não são bem estabelecidas. Para o sucesso dos programas é muito importante que os apicultores desenvolvam o costume de trocar suas rainhas anualmente. Sem isto nenhum programa pode ser estabelecido. Após isto, os produtores devem selecionar suas colônias com base na característica que eles desejem melhorar. Assim, o passo seguinte é criar suas próprias rainhas a partir das colméias previamente selecionadas. O importante é que isto deve ser combinado com boas praticas de manejo para obter bons resultados. A inseminação instrumental é uma ferramenta especializada no melhoramento genético e deve ser implementada por apicultores especializados na criação de rainhas. Assim o melhoramento genético é uma pratica fácil mas que deve ser mantida ao longo do tempo em todos os apiários de cada apicultor.

A produção apícola vem tomando grande importância nos últimos anos, devido principalmente ao aumento na produção e na exportação dos produtos das abelhas. O mercado brasileiro de produtos apícolas está avaliado atualmente em US$ 360 milhões anuais. As pesquisas demonstram um potencial de curto prazo para além de US$ 1 bilhão anual. Operam atualmente no país cerca de 200 empresas legalmente registradas, gerando cerca de 15.0 empregos diretos. Em nível internacional, somente o Japão movimenta anualmente US$ 300 milhões com própolis [2].

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Atualmente estima-se a produção nacional de mel em mais de 40 mil toneladas de mel/ano (somente em 2003 foram exportadas aproximadamente 20 mil toneladas de mel natural do Brasil) ,destacando-se como grandes produtores os Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, São Paulo, Piauí, Ceará, Bahia e Pernambuco. O total de exportações do agronegócio no Brasil em 2003 atingiu a soma de 32,4 bilhões de dólares , o que representa um aumento de 24,4 % no valor total das exportações brasileiras em relação a 2002 (26,0 bilhões de dólares). Pelos dados obtidos do Instituto de Economia Agrícola do Estado de São Paulo em 2004, com base na Secretaria de Comércio Exterior, constata-se que em 2002 o Brasil exportou 12.640 toneladas de mel (23,1 milhões de dólares) e em 2003 aumentou para 19.273 toneladas (45,5 milhões de dólares), portanto, houve um acréscimo de 52,4% em quantidade de mel exportado e um aumento de 96,8% no valor das exportações em dólares (compare-se com o aumento de apenas 24,4% em dólares de todos os produtos do agronegócio exportados pelo Brasil), fato que demonstra que o Brasil aumentou em mais de 50% na quantidade de mel exportado e praticamente dobrou a entrada de divisas em dólares provenientes das exportações de mel em apenas um ano. No entanto, comparando-se com 2001, em que foram exportados apenas 2,8 milhões de dólares, o aumento da entrada de divisas passa a ser 16 vezes maior, fato que comprova que o país se tornou um grande exportador de mel em apenas três anos [3].

Portanto é de grande importância estabelecer programas de melhoramento genético com abelhas africanizadas, que aumentem e mantenham os níveis produtivos dos diferentes produtos das abelhas.

Porém, a seleção tem que ser continua geração após geração para manter os níveis atingidos pelo melhoramento genético. Assim será atingido o limite ambiental máximo no qual não há aumento produtivo por colméia, mas o nível máximo do apiário é mantido.

O melhoramento genético em qualquer organismo visa o aumento na população das freqüências gênicas dos loci de importância econômica a serem selecionados. Com respeito às abelhas isto é o aumento da freqüência do número de colônias que produzem acima da media da geração a partir da qual foi feita a seleção.

Para acelerar o melhoramento genético

Vencovsky e Kerr [9] sugeriram que escolhendo no apiário o 25% das piores rainhas e substituindo-as por filhas das 25% melhores, aumenta-se sua produtividade nas próximas gerações em até 20%.

Porém a substituição de mais do 25% levará a um aumento maior na média da população. A recomendação geral é a troca da totalidade das rainhas de todos os apiários todo ano. Infelizmente essa é uma prática pouco estabelecida entre os apicultores devido ao desconhecimento das vantagens que tem a troca anual de rainhas. Isto permite que á cada ano se tenha uma nova rainha vigorosa para manter uma população o ano inteiro. Isto é devido a que nos climas tropicais onde a rainha pode botar ovos o ano inteiro, acontece um desgaste muito alto dela precisando ser trocada por uma nova ao final do período produtivo.

Propõe-se que para que um programa de seleção seja eficiente, deve ser feito a partir das 24 melhores colônias (no mínimo) que o apicultor possuir, das quais 12 serão usadas para produção de rainhas e as outras 12 para produzir grande número de zangões de boa qualidade. A seleção dos machos deve ser feita a partir do desempenho de suas irmãs [6].

Isto nem sempre é possível devido a que o número de colônias por apicultor é muito variável, então, os produtores com poucas colméias não estão nem devem estar excluídos de fazer melhoramento genético. Também é inviável e ineficiente para um produtor destinar 12 das suas colméias para produzirem machos, sabendo também que a probabilidade de estes se acasalarem com rainhas do mesmo apiário é baixa.

O melhoramento genético de abelhas apresenta algumas diferenças em relação a outras espécies porque estimativas como herdabilidade, semelhança entre parentes e outras, são difíceis de serem obtidas devido a que as colônias apresentam uma estrutura genética interna que dificulta o procedimento.

Os animais domésticos, tais como galinhas, gado, ovelhas, porcos e cavalos, têm sido criados seletivamente pelo homem por milhares de anos. Conseqüentemente, quando as praticas de criação modernas ficaram comuns, grande parte da seleção já tinha sido feita; o criador de animais moderno começou com linhagens já selecionadas pelo homem. As raças de abelhas (tais como as Caucasianas, Cárnicas e Italianas) geralmente eram tomadas como as raças do gado ou dos cachorros. Mas não deveria ser assim, as raças de abelhas não foram controladas estritamente nem criadas pelas pessoas e são muito mais variáveis que quaisquer animal doméstico [4].

As abelhas não foram altamente selecionadas pelo homem devido a que a reprodução básica delas não foi compreendida até 1845. Sem este conhecimento, pouco podia ser feito. Em 1851, quando este entendimento básico estava começando ser amplamente aceito, Langstroth desenvolveu a colméia de favos móveis. De repente os apicultores não somente entenderam a reprodução das abelhas mas também podiam manipular a colméia e ter controle da rainha [4].

O controle dos acasalamentos era ainda o único obstáculo que tinham. O isolamento em ilhas era um dos meios, mas era de um valor bem limitado. Entre 1860 e 1940, dezenas de tentativas foram feitas para induzir rainhas e zangões a se acasalarem em vidros, caixas, barracas ou estufas. Alguns reportaram sucessos, mas não puderam ser confirmados ou repetidos. Com o desenvolvimento da inseminação instrumental (InI) como uma técnica prática na década de 1940, a criação controlada de abelhas começou [4].

Portanto, no momento em que as pessoas começaram a criar abelhas, elas desfrutaram dos benefícios de ter uma população grande e variável com a qual trabalhar. Os criadores rapidamente descobriram que as abelhas respondiam bem à seleção. Em parte, isto é devido a que os seres humanos apenas estão começando a modificar as abelhas através da seleção e cria controlada [4].

A quantidade de variabilidade genética dentro de uma população é importante na criação de animais. Mais variabilidade resulta em maior potencial de resposta significante à seleção e em um melhoramento seletivo muito mais rápido [7].

A seleção massal é o primeiro método utilizado em populações que não sofreram nenhum melhoramento. Em abelhas, resulta em bons ganhos iniciais, principalmente em híbridos africanizados, graças a sua grande variabilidade genética, mas não deve ser realizado em populações pequenas [6].

Entre as ferramentas para o melhoramento genético, está a técnica da InI, que permite agilizar os programas de melhoramento genético, porque permite o controle dos cruzamentos, propiciando a formação de matrizes de boa qualidade e permite um completo controle da contribuição parental [6].

É uma ferramenta essencial para o pesquisador que precisa cruzamentos específicos e para o apicultor envolvido em um programa de melhoramento. As muitas contribuições de especialistas e cientistas nos últimos 60 anos têm levado ao aperfeiçoamento da técnica [8].

Porém, a InI no Brasil não tem se desenvolvido muito devido ao alto custo dos aparelhos e ao pouco treinamento no procedimento. Assim, em paises industrializados a técnica está muito bem desenvolvida a ponto de que praticamente não existam diferenças entre rainhas acasaladas naturalmente e rainhas inseminadas obtendo assim colônias altamente produtivas as quais podem ser avaliadas diretamente. A InI esta tão bem desenvolvida que atualmente se faz inseminação em rainhas de Bombus spp [1].

Atualmente, na USP Ribeirão Preto estão sendo implementadas novas técnicas de inseminação as quais permitem a obtenção de rainhas inseminadas que atingem nas suas colônias estados produtivos. Estas rainhas não têm diferenças significativas com as rainhas fecundadas naturalmente.

A inseminação permite que todo o genótipo materno e paterno seja selecionado e que as colméias com rainhas inseminadas sejam avaliadas diretamente sem depender da alta variabilidade da sua progênie.

A InI de rainhas não é difícil para aqueles que estão familiarizados com o uso de microscópios. Considerando todos esses aspectos, é necessário acrescentar ainda que o equipamento deve ser adequado, estéril, preciso e o trabalho cuidadoso, senão correremos o risco da InI será decepcionante ou mesmo frustrante. Um interesse genuíno na InI é muito útil também, mas deve ser enfatizado que o sucesso depende da precisão e de uma esterilidade estrita [5].

Portanto para iniciar um programa de melhoramento genético no Brasil não se deve pensar que a InI é a solução para todos os apicultores, já que é uma técnica cara e especializada. Para que a inseminação seja uma técnica eficiente deve-se transpor inicialmente os obstáculos mais básicos. Desenvolver o costume de trocar as rainhas anualmente é o primeiro passo a ser tomado na implementação de um programa de melhoramento genético. Aprender e aperfeiçoar as técnicas da criação de rainhas é tarefa de muitos apicultores os quais devem se especializar em fornecer rainhas a outros apicultores. A troca de rainhas traz muitas vantagens para os produtores, devido ao fato que permite um seguimento mais preciso das colméias e as respostas à seleção são muito mais rápidas. Também é essencial uma maior interação entre os apicultores e entre eles e as instituições que fazem pesquisa apícola. Dessa forma os níveis produtivos aumentarão e serão mantidos ao longo do tempo.

1. Baer B., Schmid H. P., The artificial insemination of bumblebee queens. Insects Sociaux. 47, (2000) 183-187.

2. Fundação Sebrae. http://www.apis.sebrae.com.br/. 2004.

3. Gonçalves L. S., Expansão da apicultura brasileira e suas perspectivas em relação ao mercado apícola internacional. Anais do XV Congresso brasileiro de apicultura. Natal, Rio Grande do Norte. 2004.

4. Harbo J. R., Rinderer T. E., Breeding and genetics of honeybees. Beekeeping in the United States. http://maarec.cas.psu.edu/bkCD/HBBiology/ breeding_genetics.htm. 2005.

5. Laidlaw H. H., Production of queens and package bees. The hive and the honeybee. Ed. Bookcrafters. (2000) p. 235-267.

6. Manrique A. J., Seleção de abelhas africanizadas para a melhoria na produção de própolis. Tese. (2001) 108 p.

7. Page R. E., Kerr W. E., Honey bee genetics and breeding. “The african honeybee”. Ed. West view press. p. 157 – 186. 1991.

8. Schley P., Short instructions to instrumental bee insemination. http://www.besamungsgeraet.de/shortin.pht ml. 2005.

9. Vencovsky R., Kerr W. E., Melhoramento genético em abelhas. I. Teoria e avaliação de alguns métodos de seleção. Brazilian journal of genetics. (1982) 5(3): 493-503.

 

Kaila Roberta Carvalho

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Kaila Roberta Carvalho

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