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Genética dos campeões

Conseguir um cavalo perfeito para as mais variadas provas de equitação ou trabalho. Chegar a um exemplar que seja bom de corrida e de marcha, que apresente ótimo rendimento no salto e ao executar reprises em provas de adestramento. Se pudesse existir, esse animal seria o símbolo máximo de versatilidade e responsável por grandes conquistas. E poderia gerar outros potenciais campeões com o auxílio de uma matriz de características também nobres. Além de orgulho, o animal daria dinheiro.

Ter um equino multitarefa talvez seja o maior sonho de quem trabalha com animais voltados para a prática esportiva. Mas basta ter um conhecimento razoável de melhoramento genético para saber que “criar” um cavalo com tal perfil é uma missão impossível.

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“Quando eu seleciono uma característica X, estou deixando de selecionar uma Y. Por exemplo: quanto mais força eu ‘coloco’ no cavalo, menos técnica o animal terá. Isso está provado. É similar com o que acontece no futebol. Quantos jogadores são produzidos para sair um Messi ou um Neymar?”, compara o zootecnista e inspetor técnico da Associação Brasileira dos Criadores de Cavalo Brasileiro de Hipismo, Marcelo Navajas. Ser contemplado com um cavalo especial requer uma dose extra de sorte.

A doutora em zootecnia pela UFMG, Fernanda Godoi, corrobora o que defende Navajas. Ela explica que, além de a correlação genética entre características almejadas para os cavalos de esporte ser muito baixa, há a herdabilidade de desempenho atlético. No caso dos equinos, essa herança também é reduzida, pois existem muitos outros efeitos que são ambientais e não genéticos.

De acordo com a literatura científica, a capacidade de um cavalo reproduzir o desempenho dos pais varia de característica para característica. Por exemplo: em um universo de 100 potros, apenas 13 a 29 deles herdam a capacidade de saltar dos genitores. A aptidão para o adestramento pode ser ainda menor, variando de 3% a 27%.

Se, por um lado, o repasse de características de desempenho é limitado, por outro, a herdabilidade morfológica (estrutura do corpo) é maior. A altura é uma característica repassada em 63% dos casos. Morfologia e desempenho têm relação estreita entre si. A estrutura corporal quase sempre é um fator que favorece a performance.

As características dos animais estão codificadas em genes. Elas podem se relacionar com uma herança simples – quando poucos pares comandam e definem uma característica – ou com uma herança poligênica – quando vários genes determinam. Aí reside a dificuldade dos geneticistas de chegar a um arranjo que combine determinados atributos.

Mas a genética não é tudo. “A gente sabe que na formação de um cavalo não são só a herdabilidade e as características genéticas que formam um grande animal. Todos os fatores ambientais aos quais ele está submetido acabam influenciando. O animal também precisa de uma boa nutrição, uma boa criação, um bom ferrador, um bom veterinário, um bom treinador e um bom domador”, entende Navajas.

Na mesma lógica, não se pode afirmar que um animal originário de pais de linhagem necessariamente seja um cavalo de alto potencial atlético. Existem variáveis genéticas. Enquanto um filhote pode herdar características que saltam aos olhos e ser tão bom ou melhor que os genitores, outro pode não se apresentar tão adequado.

 

APURANDO

 

Mangalarga Marchador, Campolina e Brasileiro de Hipismo são raças “desenvolvidas” a partir de um ideal morfológico e performático. Em todos os casos, visava-se, além da morfologia e força, a aptidão para executar as funções desejadas. No caso dos marchadores – Mangalarga e Campolina -, a marcha e para os Brasileiro de Hipismo, principalmente o salto.

 

A definição do padrão racial acontece quando, após o cruzamento de diversos animais com características que se deseja consolidar, chega-se a um perfil ideal de equino. Com esses cavalos são feitos cruzamentos lineares. A raça só será reconhecida, caso os exemplares originários desses cruzamentos tenham a capacidade de repassar características a seus descendentes. “Caso isso não aconteça, a raça é descaracterizada. É para fiscalizar justamente isso que existem as diversas associações”, explica Fernanda.

 

Exercício de observação

 

Em 2011, Fernanda Godoi estudou as variáveis físicas e comportamentais de potros não treinados, antes e no decorrer dos saltos. A intenção foi identificar as características que mais contribuíam para os animais transporem obstáculos sem grandes dificuldades. Assim eram selecionados os mais aptos para o salto.

 

“Utilizamos uma câmera de alta velocidade e fixamos marcadores em pontos anatômicos do corpo dos animais. Por meio das filmagens, e auxiliados por um programa de computador, analisamos ângulos, distâncias e velocidades. Então foi uma avaliação quantitativa”, explica.

 

De acordo com a pesquisadora, as características morfológicas (estruturais) sobressaíram. Além da boa flexibilidade dos membros anteriores, a altura foi importante no desempenho dos animais. Em linhas gerais, quanto mais alto, mais apto o cavalo estava para a atividade. A amplitude do lance antes do salto e a distância da batida (ou decolagem para o salto) também foram determinantes para o bom desempenho.

 

Fonte: Vox objetiva

http://www.voxobjetiva.com.br/noticia/160/a-genetica-dos-campeoes

André Gustavo Rosa de Andrade

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André Gustavo Rosa de Andrade

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