É tentador pensar que escolhemos nossos parceiros amorosos a partir das semelhanças que vislumbramos entre nós e eles. Mas a ciência mostra que, do ponto de vista biológico, ocorre justamente o oposto. Nosso trabalho no Laboratório de Imunogenética e Histocompatibilidade na Universidade Federal do Paraná (LIGH-UFPR) está ajudando a desvendar um desses mecanismos.  
 
Hoje sabemos que a natureza atua para aproximar indivíduos de MHC diferentes. MHC significa Major Histocompatibility Complex, ou Complexo Principal de Histocompatibilidade e, na espécie humana, é conhecido como HLA. O MHC/HLA é uma região do genoma na qual ficam vários genes relacionados à resposta imunológica, cada um podendo comportar centenas de alelos (formas alternativas do mesmo gene) diferentes. Isso gera, a cada pessoa, uma individualidade biológica. A variação aumenta as chances de o indivíduo ser resistente a microorganismos geradores de doenças, diminuindo a possibilidade de elas se propagarem. Do ponto de vista de preservação da espécie, seria interessante que indivíduos MHC/HLA diferentes se encontrassem e formassem casais.  
 
Em camundongos e ratos, é bem documentado o fato de as fêmeas preferirem o parceiro geneticamente diferente delas próprias. Em 1995, o biólogo suíço Claus Wedekind e seus colaboradores da Universidade de Lausanne realizaram um estudo evidenciando a preferência pelo MHC diferente entre seres humanos. O estudo de Wedekind tornou-se um modelo para várias pesquisas. Nosso grupo, da Universidade Federal do Paraná, foi pioneiro na realização de trabalho semelhante feito com a população brasileira.  
 
 

No final de maio, durante um seminário da Sociedade Europeia de Genética Humana, em Viena, apresentamos o resultado de um estudo realizado, durante um ano, a partir de informações de nosso banco de dados sobre a população do Sul do Brasil. Partimos de uma amostra de 90 casais. A partir desse grupo, criamos dois novos conjuntos de casais virtuais. Um foi gerado a partir dos casais reais, que foram recombinados de forma aleatória. O outro era formado pelas informações obtidas de 410 indivíduos presentes em nosso banco de dados, combinados aleatoriamente. A seguir, as diferenças genéticas entre os casais reais foram contadas e comparadas com as dos casais virtuais.  
 
Nossa hipótese de trabalho era que, se o MHC/HLA fosse irrelevante para a escolha do parceiro, a comparação das duas amostras, tanto as reais quanto as virtuais, deveria apresentar médias de distribuição semelhantes. Os resultados mostraram, porém, que os casais reais apresentam mais diferenças genéticas entre si do que aqueles gerados virtualmente.  
 
Claro que, diferentemente de outras espécies, o ser humano é muito influenciado por outros fatores. Elementos sociais, culturais etc. colaboram para a formação do casal. Os resultados da nossa pesquisa fazem sentido somente no contexto de estudos genéticos de população. Isto é, apenas quando se estuda um grande número de indivíduos. Pensando assim, nós não podemos de maneira nenhuma prever que tipo de escolha de parceiro uma pessoa fará tomando como base unicamente seus genes. Mas talvez eles mandem no nosso “coração” bem mais do que pensávamos.  

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ARTIGO RETIRADO DO SITE http://revistagalileu.globo.com/

 

Fernanda Yumi Ueno de Oliveira

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Fernanda Yumi Ueno de Oliveira

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