A mistura E32 na gasolina promete salvar o setor sucroenergético? Veja a análise sobre como a oferta de etanol de milho impacta o preço do ATR.
Para Quem Tem Pressa
A aprovação do aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina para 32% (E32) pelo CNPE trouxe esperanças ao setor sucroenergético. Contudo, o engenheiro agrônomo Felippe Stelutti alerta que o impacto direto no preço do ATR será bastante limitado. Embora a nova regra consuma cerca de 1 bilhão de litros adicionais do biocombustível, a oferta nacional deve crescer em 4 bilhões de litros — puxada sobretudo pela forte expansão do etanol de milho —, mantendo a oferta muito acima da demanda.
Facebook Portal Agron, nosso canal do Whatsapp Portal Agron, o Grupo do Whatsapp Portal Agron, e Telegram Portal Agron mantém você atualizado com as melhores matérias sobre o agronegócio brasileiro.
Acompanhe as cotações de soja, milho, boi gordo, vaca gorda, novilha gorda e boi China
A nova mistura E32 e a expectativa dos canavicultores
A aprovação do aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 30% para 32% (E32) pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) reacendeu o otimismo no setor sucroenergético. A medida, que integra as diretrizes do programa Combustível do Futuro, fez muitos fornecedores de cana-de-açúcar visumbrarem dias melhores para a sua remuneração no campo.
A lógica teórica do produtor é bastante simples: se o Governo Federal força um aumento na demanda pelo biocombustível, a matéria-prima do campo precisará ser mais valorizada, impulsionando a recuperação do indicador do Açúcar Total Recuperável. No entanto, após alertar para a forte queda do indicador e apontar uma leve reação registrada em junho, o engenheiro agrônomo e produtor rural Felippe Stelutti veio a público esfriar o entusiasmo e responder à dúvida que mais recebeu em suas redes sociais: afinal, o aumento para 32% vai melhorar o preço do ATR?
Para a surpresa de quem esperava uma guinada rápida nas contas da fazenda, a resposta do especialista foi direta: “Esse aumento do etanol na gasolina vai favorecer o nosso setor? Vai ajudar o fornecedor de cana? Infelizmente, a resposta é que não muda tanta coisa”.
Oferta superlativa: Por que a conta da demanda não fecha?
A matemática por trás do pessimismo técnico é puramente de mercado. Felippe Stelutti explica que a implementação do E32 exigirá o consumo adicional de aproximadamente 1 bilhão de litros de etanol anidro por ano. Embora o número pareça impressionante à primeira vista, ele é amplamente engolido pela expansão da produção nacional.
Apenas nesta safra, a projeção é que a produção brasileira de etanol cresça cerca de 4 bilhões de litros, impulsionada tanto pela expansão das usinas sucroenergéticas tradicionais quanto pela forte entrada em operação de novas unidades fabris de processamento de grãos.
“Vai ter muito etanol sobrando na praça. Com isso, acaba que não muda tanta coisa para o nosso setor”, ponderou Stelutti. O especialista lembra, por outro lado, que a medida governamental tem seus méritos macroeconômicos e ambientais: ao ampliar o uso de combustível renovável e reforçar a segurança energética nacional, o país deixa de importar cerca de 800 milhões de litros de gasolina por ano. O problema é que essa boa notícia para a balança comercial não se traduz, automaticamente, em um salto imediato no preço do ATR.
┌──────────────────────────────────────────────┐
│ E32: Demanda adicional = +1 Bi de Litros │
└──────────────────────┬───────────────────────┘
│
▼
┌──────────────────────────────────────────────┐
│ Produção total: Expansão = +4 Bi de Litros │
└──────────────────────┬───────────────────────┘
│
▼
┌──────────────────────────────────────────────┐
│ Resultado: Sobra de oferta no mercado │
│ Impacto: Limitado no preço do ATR │
└──────────────────────────────────────────────┘
O avanço do etanol de milho e a apreensão no campo
Entre os comentários recebidos na publicação de Felippe Stelutti, o protagonismo do milho na produção de biocombustíveis foi o ponto mais debatido. A percepção do produtor rural em relação ao avanço dessa cultura no Centro-Oeste reflete uma apreensão real sobre como essa dinâmica afeta o preço do ATR. Um dos canavicultores sintetizou a situação com uma frase contundente:
“O aumento do etanol de milho deu no meio do produtor de cana.”
Essa reação não ocorre por acaso. O Brasil viveu nos últimos anos uma corrida de investimentos em plantas industriais focadas na usinagem do milho. Diferente da cana, que depende da sazonalidade da colheita e de uma logística de tiro curto para não perder sacarose, o milho pode ser armazenado por longos períodos. Isso permite que essas indústrias operem de forma contínua durante praticamente o ano todo, mantendo a oferta de combustível constante e pressionando o preço do ATR.
A resiliência das usinas versus a angústia do produtor
A concorrência crescente levantou questionamentos entre os fornecedores sobre a sustentabilidade a longo prazo desse modelo e a distribuição dos prejuízos na cadeia de suprimentos. Outro canavicultor desabafou nas redes de Stelutti:
“A crise afeta de forma drástica o produtor. O etanol do milho com certeza chegou assustando, porém será que ele se sustenta nesse patamar? Pergunto porque é uma cultura que não tem a mesma robustez da cana-de-açúcar e é mais sensível aos fatores climáticos. Mas não entendo por que a conta não chega da mesma forma para as usinas. Os produtores sempre acabam pagando a conta. Assim fica mais difícil do que já é.”
O desabafo expõe uma insatisfação recorrente na rotina do campo: a percepção de que a volatilidade e os solavancos econômicos da cotação do biocombustível são absorvidos majoritariamente pelos canavicultores, enquanto as usinas conseguem atravessar os períodos de baixa com maior proteção financeira e margem de manobra. A ironia, claro, é que na hora de dividir os custos de insumos e inflação, a conta sempre chega sem desconto para o agricultor — parece até que o adubo e a gasolina do trator não leram os relatórios de baixa do mercado.
A esperança que resiste ao fantasma dos custos
A despeito da cautela técnica apresentada por Felippe Stelutti, o sentimento de esperança ainda persiste no dia a dia daqueles que dependem da terra. Em meio ao cenário desafiador de custos operacionais altos e depreciação das margens, o desabafo de mais um produtor traduz a realidade social por trás das métricas do preço do ATR:
“Tomara, Felipe. Um fio de esperança em meio ao desespero. Tudo subindo, plano de saúde um absurdo, e a cana baixando mês a mês. Quem sabe agora venha uma melhora.”
A expectativa de dias melhores reflete o momento delicado do setor sucroenergético. Após sucessivas quedas e margens espremidas, qualquer sinalização de consumo adicional de combustíveis renováveis acende um sinal de otimismo. No entanto, o alerta final do engenheiro agrônomo permanece firme: o aumento da mistura E32 isoladamente não tem força suficiente para provocar uma disparada sustentável no preço do ATR. Enquanto o ritmo de expansão da oferta — impulsionado exponencialmente pelo milho — continuar correndo mais rápido do que a demanda dos tanques, o canavicultor precisará manter a gestão na ponta do lápis e encarar um cenário que ainda exige extrema prudência.
Imagem principal: Meramente ilustrativa gerada por IA.

