Polilaminina: antídoto da UFRJ devolve movimentos
Para quem tem pressa:
Polilaminina, resultado de 25 anos de estudo da UFRJ, apresentou resultados impressionantes em pacientes com lesão medular. Alguns voltaram a andar ou recuperaram movimentos parciais. A Anvisa, porém, ainda aguarda dados complementares para autorizar ensaios clínicos maiores.
O que é a Polilaminina?
Durante um quarto de século, a professora Tatiana Coelho de Sampaio, da UFRJ, conduziu uma investigação silenciosa e persistente sobre a laminina, proteína encontrada na placenta. Os estudos mostraram que essa molécula funciona como uma espécie de “teia microscópica”: ao mesmo tempo em que protege os neurônios já existentes, também estimula a regeneração de novos.
A partir desse princípio, nasceu a Polilaminina, uma molécula inovadora que hoje desponta como alternativa promissora para devolver movimentos a pessoas com paraplegia ou tetraplegia.
Resultados da fase experimental
Na fase experimental clínica, ainda não publicada em revistas científicas revisadas por pares, entre seis e dez pacientes com lesões completas participaram dos testes. Eles receberam doses minúsculas do fármaco diretamente na medula, num intervalo de até 24 horas a seis dias após o trauma.
Os resultados foram surpreendentes: muitos recuperaram movimentos parciais ou até completos.
Um paciente de 31 anos, vítima de acidente de trânsito, conseguiu mexer o dedão do pé no primeiro mês após a aplicação. Com fisioterapia imediata, voltou a caminhar em apenas cinco meses.
A atleta paralímpica Hawanna Cruz Ribeiro, tetraplégica desde 2017, iniciou o tratamento três anos após a lesão. Mesmo assim, recuperou de 60% a 70% do controle do tronco e parte da sensibilidade da bexiga, embora sem total independência funcional.
Outros pacientes apresentaram ganhos significativos em autonomia, força muscular e controle de tronco, melhorando qualidade de vida e independência no dia a dia.
Evidências em animais
Os testes em animais reforçam o potencial da Polilaminina. Cães com lesões crônicas voltaram a andar, e ratos apresentaram resposta visível em apenas 24 horas após a aplicação. Esses resultados indicam que a substância atua de forma rápida e consistente, favorecendo a regeneração neural em diferentes condições.
Limitações e cautela(Polilaminina)
Apesar da empolgação, é fundamental reconhecer que os resultados ainda são preliminares. Os ensaios envolveram poucos pacientes, não tiveram grupos de controle e não geraram dados estatísticos robustos.
Ainda não se sabe:
Qual é a dose ideal.
Se múltiplas aplicações poderiam melhorar a eficácia.
Quanto tempo duram os efeitos.
Qual é o real impacto em lesões antigas e crônicas.
Ou seja, trata-se de uma promessa científica que precisa ser validada em larga escala.
O que diz a Anvisa sobre Polilaminina
A Anvisa acompanha o caso de perto. Desde o fim de 2022, mantém reuniões com o laboratório Cristália, parceiro da UFRJ no desenvolvimento. O órgão regulador, entretanto, aguarda dados complementares dos testes pré-clínicos para avaliar a segurança do medicamento antes de liberar a fase 1 dos ensaios clínicos.
Quando aprovados, esses testes envolverão poucos voluntários e terão como principal objetivo avaliar a segurança. Especialistas estimam que todo o processo, desde a seleção dos participantes até a eventual aprovação final, pode levar até três anos.
Um divisor de águas para a medicina
A Polilaminina se destaca por ser uma alternativa mais simples, acessível e segura do que terapias baseadas em células-tronco, que ainda enfrentam desafios técnicos, custos elevados e incertezas.
Sua ação direta na regeneração neural coloca o Brasil em evidência no cenário internacional da biotecnologia. Caso os resultados se confirmem em fases mais avançadas, o país poderá assinar uma das maiores revoluções médicas da atualidade: reconectar cérebro e corpo em pacientes até então condenados à paralisia.
Um toque de humor (porque ciência também pode sorrir)
Se alguém dissesse há 25 anos que um estudo brasileiro com proteína da placenta poderia devolver movimentos a tetraplégicos, muita gente teria rido. Pois bem, talvez seja hora de rir de volta — mas dessa vez de alegria, com um fundo de ironia científica: afinal, os neurônios parecem ter lembrado como se dança.
imagem:pexels

