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Picanha ainda ajuda ganhar eleição?

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A Associação Brasileira de Proteína Animal destaca: Maior parte da carne produzida em solo nacional fica para o mercado interno.

Escrito por Evaristo de Miranda, o excelente artigo abaixo (Carne animal: Planeta carnívoro e antropofágico) foi publicado no site Revista Oeste e reproduzido parcialmente no site Agron; para ver o artigo na íntegra acesse aqui o site Revista Oeste.

Veja também: De olho no boi: Oferta de animais derretendo o preço da arroba

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De 1960 para cá, o número de habitantes do planeta cresceu 2,5 vezes: de 3 bilhões para 8 bilhões de pessoas. Já o consumo de proteína bovina, suína, de frango e ovina cresceu cinco vezes, passando de 71 milhões de toneladas em 1961 para 339 milhões em 2021. O planeta consome por ano 133 milhões de toneladas de carne de frango, 110 milhões de suína, 72 milhões de bovina e 16 milhões de ovina e caprina. A carne é boa ou má? A carne é fraca ou forte? Há algo de errado com a carne?

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Para a FAO e a OCDE, o consumo mundial da proteína deverá crescer 15% até 2031 (17% a suína; 16% a de frango e 4% a bovina). E 75% desse aumento virá dos países em desenvolvimento. O consumo médio mundial de proteína por habitante passou de cerca de 20 quilos (em 1960) para cerca de 43 quilos. Além da expansão da população, o consumo cresceu porque aumentou o número de pessoas capazes de pagar por um alimento cujo preço, mesmo com tendência de queda, é superior ao dos cereais e leguminosas.

Estimativas do consumo atual de proteína variam entre diversos estudos e estatísticas. No essencial, os dados são convergentes: quanto mais rico um país, maior é o seu consumo de proteína por habitante. Os maiores consumidores de proteína do mundo — de 100 a 120 quilos por habitante ao ano — são Estados Unidos, Austrália, Nova Zelândia e Kuwait. Esse consumo é mais de 20 vezes superior à média de países como Bangladesh, Índia, Burundi e outros africanos, da ordem de 4 quilos por habitante ao ano.

Na segunda posição dos grandes consumidores da proteína, na faixa de 90 a 100 quilos por habitante ao ano, estão países ricos como Israel, Canadá, parte da Europa Ocidental, além da carnívora Argentina. A média na União Europeia é da ordem de 85 quilos por habitante ao ano. Lidera o ranking a Espanha (100 quilos), seguida por Portugal (94 quilos), Polônia (89 quilos) e Alemanha (88 quilos). No fim da linha está a Bulgária com 43 quilos por habitante ao ano.

A China é um exemplo de como o crescimento da renda se reflete no aumento do consumo de proteína da população. O país consumia menos de 5 quilos por habitante antes de 1960. Hoje, o consumo é da ordem de 60 quilos por habitante ao ano. E a China é o maior mercado de consumo de carne do planeta.

O aumento no consumo de proteína é sempre acompanhado por uma redução na aquisição de outros alimentos. No Brasil, essa evolução alimentar se traduziu em menos arroz e feijão, e mais frango. Em quatro décadas, o consumo per capita de arroz e feijão caiu 40% e o de carne cresceu 195%. O consumo médio de frango saltou de 2 quilos em 1980 para quase 48 quilos por habitante ao ano. Houve um extraordinário crescimento da oferta e uma redução constante dos preços, resultado da intensificação e tecnificação da avicultura.

A Associação Brasileira de Proteína Animal destaca: 67% da proteína produzida em solo nacional fica para o mercado interno. Ainda assim, o Brasil é o maior exportador e o segundo produtor mundial de carne de frango. Em 2022, exportou 4,8 milhões de toneladas, a mais de 150 países. Aqui, o consumo total de carne se situa num terceiro grupo de países, na faixa de 80 a 90 quilos por habitante ao ano, com Uruguai, Eslovênia, Inglaterra e outros. Ele é mais de dez vezes superior ao de países africanos como Eritreia, Etiópia, Moçambique, Gâmbia, Malawi, Ruanda, Níger e outros.

A Organização Mundial da Saúde recomenda consumir 70 gramas de proteína por dia para homens e 55 gramas para mulheres (um bife magro e pequeno). Por ano, os homens deveriam consumir 25,5 quilos de proteína; e as mulheres, 20 quilos. Apesar do crescente número de veganos e vegetarianos, das “carnes” vegetais, das promessas de “carne” de laboratório e dos riscos associados ao consumo de proteína, sobretudo as processadas, há gente comendo muito além do adequado.

Além de argumentos éticos e morais contra matar animais e até explorá-los, o consumo de carne enfrenta outras críticas. Ele é responsabilizado por parte das “mudanças climáticas”, dada a produção mesentérica de gases de efeito estufa pelos ruminantes e o desmatamento resultante da extensão das pastagens. Reduzir os rebanhos não é só um apelo ambientalista. Agora começa a ser política de Estado, praticada como crença religiosa, como na Holanda. E lá, com forte resposta política de produtores batavos. Campanhas como a “Segunda Sem Carne”, surgida nos Estados Unidos em 2003, levaram à demissão do diretor de marketing do Bradesco em caráter irrevogável, em 2022, diante da forte reação dos pecuaristas brasileiros. Já os movimentos pelo bem-estar animal contribuíram para a incorporação do tema e a evolução dos sistemas de produção de carne, leite e ovos.

Em última instância, muitos movimentos contra o consumo de carne e os sistemas modernos de produção defendem a extinção da pecuária.

“No entanto” – (nota do autor desse post, aqui no Portal Agron. Essa frase não consta no texto original)

A carne é forte. O mundo seguirá carnívoro. E não vegetariano ou antropofágico, como desejava o Modernismo brasileiro. O país seguirá produzindo, exportando e consumindo carnes, as mais diversas, cada vez mais. Sinal de progresso, tecnologia, inovação e competitividade.

A carne é fraca. Apesar dos ideais do veganismo e de outras perspectivas vegetarianas, dos delicta carnis (latim para delitos da carne) e dos avisos e campanhas, as falsas promessas de picanha ao povo pobre ainda ajudam a ganhar eleição no Brasil e alhures. Sinal de?

Na busca humana de nossa humanidade, esta carne e este corpo são nossa última terra! Respire, caro de carne mea*1. Haverá sempre um abismo entre esta realidade ontológica, a busca desta terra essencial e de seu hálito, e o comer carne ou abóbora, como se picanha fosse, na laje. N’en déplaise*2.

*1 – Carne mea: Esta expressão em latim significa “minha carne”. É frequentemente usada para se referir a alguém próximo ou a um parente querido. Pode ser uma forma poética ou afetuosa de se referir a uma pessoa próxima, como um filho, uma filha ou um ente querido.

*2 – N’en déplaise: Esta expressão é em francês e pode ser traduzida como “não obstante”, “apesar de” ou “mesmo que não agrade”. É frequentemente usada para expressar uma opinião ou afirmação que pode desagradar ou contrariar alguém, mas que o falante considera válida ou verdadeira. É uma maneira educada de expressar um ponto de vista divergente, mas enfático.

Fonte: Revista Oeste. Imagem principal: Depositphotos.


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