Estudo em SP revela que onças-pardas mudam rotina e evitam locais percorridos por cães domésticos

Compartilhar

Para Quem Tem Pressa

  • Pesquisa com armadilhas fotográficas monitorou a interação entre cães domésticos (Canis familiaris) e onças-pardas (Puma concolor) em áreas protegidas de Mata Atlântica no estado de São Paulo.
  • Em vez de afugentar os cachorros, a onça-parda demonstrou um comportamento de fuga temporal: o felino levou em média cerca de 74 horas (pouco mais de três dias) para retornar a locais onde cães foram detectados.
  • Os cães não expulsaram territorialmente as onças das matas, mas a presença canina reduziu o efeito positivo da vegetação nativa sobre a ocupação do predador.
  • Cientistas apontam a necessidade urgente de posse responsável, castração e fiscalização no entorno de unidades de conservação para diminuir perturbações à fauna silvestre.

A presença de cães domésticos (Canis familiaris) de vida livre em áreas de preservação ambiental está provocando alterações na rotina do maior predador terrestre do estado de São Paulo: a onça-parda (Puma concolor), também conhecida como suçuarana.

Estudo em SP revela que onças-pardas mudam rotina e evitam locais percorridos por cães domésticos

Um estudo científico publicado no periódico internacional Biological Conservation investigou como a circulação de cachorros afeta a ocupação e os padrões de atividade da onça-parda em remanescentes de Mata Atlântica paulistas. A análise foi conduzida pelos pesquisadores Rodolpho Gonçalves da Silva, Isabele Aparecida Manzo e Rita Bianchi.

Os resultados apontaram um padrão de comportamento inesperado para um predador de topo de cadeia alimentar: a onça-parda passou a evitar temporalmente os locais por onde os cães transitaram.

Recuo temporal de cerca de 74 horas

Para avaliar a movimentação das duas espécies, os pesquisadores instalaram e monitoraram 67 estações de armadilhas fotográficas em unidades de conservação do território paulista. A análise utilizou modelos de ocupação de duas espécies para medir tanto a probabilidade de uso do espaço quanto a separação no tempo.

Os dados revelaram que os cães não provocaram uma exclusão espacial permanente das onças-pardas. Ambos os animais continuaram utilizando as mesmas áreas, mas em momentos diferentes.

Após a detecção de um cão por uma câmera, a onça-parda levou em média aproximadamente 74 horas — pouco mais de três dias — para voltar a passar por aquele mesmo ponto. Esse intervalo de retorno foi significativamente mais longo do que o tempo decorrido após a passagem de outras espécies de animais.

Segundo os autores do estudo, esse padrão sustenta a hipótese de que o felino não enxerga o cão doméstico como um concorrente territorial direto, mas sim como uma fonte pontual de perturbação local que prefere evitar.

Efeito da vegetação nativa sofre interferência

A pesquisa também avaliou a relação do felino com as características da paisagem. Como esperado para a biologia da espécie, a cobertura de vegetação nativa exerceu influência positiva sobre a ocupação das onças-pardas.

No entanto, essa vantagem ambiental diminuiu significativamente nas áreas onde foram identificados cães domésticos. Ou seja, mesmo em fragmentos bem conservados de floresta nativa, a frequência e a intensidade da atividade da onça sofreram impacto direto decorrente da passagem dos animais domésticos.

Muitos desses animais que circulam por reservas não são necessariamente cães abandonados, mas animais com tutores em propriedades rurais vizinhas que permanecem soltos ao longo do dia, adentrando matas e estradas de serviço.

Desafios para a conservação e manejo

A perturbação no ritmo de movimentação de um predador de topo pode gerar desdobramentos em cascata em todo o ecossistema florestal, afetando tanto presas naturais quanto carnívoros de médio porte (mesopredadores).

Diante dos resultados, os cientistas ressaltam a necessidade de aperfeiçoar o manejo de animais domésticos no entorno de unidades de conservação. Entre as principais medidas recomendadas pelo estudo estão:

  • Programas contínuos de conscientização sobre posse responsável nas zonas de amortecimento;
  • Campanhas públicas de castração e vacinação nas comunidades rurais vizinhas;
  • Fortalecimento da fiscalização e do controle de acesso de animais domésticos aos perímetros das unidades de conservação.

Os pesquisadores destacam que a implementação dessas ações depende do trabalho conjunto entre gestores de áreas protegidas, poder público regional e comunidades locais, equilibrando a conservação da biodiversidade nativa com a rotina das propriedades rurais.

fonte/crédito: Imagem destacada ilustrativa gerada por IA.


Compartilhar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *