Nas últimas safras, os produtores de milho têm se deparado com altas infestações de pulgão-do-milho (Rhopalosiphum maidis) em suas lavouras. Anteriormente considerada uma praga secundária, sua importância tem aumentado em cultivos de milho safrinha, especialmente durante períodos de estiagem prolongada. O clima seco, com altas temperaturas e baixa umidade relativa do ar, favorece o aumento populacional da praga.
Biologia
O pulgão-do-milho é um inseto sugador de tamanho pequeno (0,9mm – 2,6mm), encontrado em colônias formadas por adultos e ninfas, principalmente dentro do cartucho do milho. Apresentam coloração amarelo-esverdeada ou azul-esverdeada, corpo alongado, patas e antenas de coloração negra.
Os adultos podem ser ápteros (sem asas) ou alados. A forma áptera é predominante (80% da colônia). Já a forma alada é responsável pela dispersão da espécie, ocorrendo quando existe alta população do inseto, resultando em escassez de alimento. Condições ambientais desfavoráveis ao desenvolvimento da praga também induzem à ocorrência de formas aladas.
A reprodução acontece sem o macho, de forma assexuada (partenogênese), dando origem a novas fêmeas. As ninfas saem já formadas do corpo da mãe, não ocorrendo o processo de oviposição. Portanto, a velocidade de reprodução é muito rápida. O ciclo de vida deste inseto é altamente dependente da temperatura, sendo favorecido e acelerado sob clima quente. Ventos e chuvas frequentes, por outro lado, reduzem o crescimento populacional da espécie.
O pulgão-do-milho se alimenta preferencialmente das partes novas das plantas, ficando geralmente dentro do cartucho. Esse hábito dificulta tanto a sua observação pelos produtores quanto o seu controle. Sob condições favoráveis (estiagem), a população de pulgões pode aumentar rapidamente e infestar todos os tecidos jovens da planta, incluindo pendão e gemas florais.
Danos
Além do dano direto pela sucção de seiva e consequente murcha foliar, o pulgão-do-milho excreta uma substância açucarada (honeydew) que favorece o crescimento de fumagina sobre os tecidos da planta. Caso a injúria ocorra no pendão e/ou nas gemas florais, podem ocorrer falhas na polinização e na fecundação das espigas, prejudicando a formação dos grãos.
O pulgão-do-milho também atua como vetor do vírus do mosaico, adquirindo-o ao se alimentar de plantas infectadas e contaminando plantas sadias. De forma geral, quanto mais cedo ocorrer a infestação pela praga, maiores serão os danos resultantes. Caso as plantas sejam atacadas durante seu desenvolvimento vegetativo, as perdas podem chegar a 60% da produção.
Os danos observados são uma resposta fisiológica da planta à alimentação do pulgão, estando relacionados também às condições de estresse hídrico e ao genótipo de milho utilizado. Os sintomas mais frequentes são morte de plantas, perfilhamento de espigas, espigas atrofiadas e/ou com granação incompleta.
Monitoramento
A população de pulgões deve ser monitorada desde o estágio V4 até o início da fase reprodutiva. Recomenda-se examinar 100 plantas em cada 10 ha, de forma aleatória. Deve-se observar principalmente a região do cartucho. Segundo a Embrapa Trigo, o nível de infestação em cada planta pode ser classificado de acordo com uma escala de 0 a 2, conforme exemplificado abaixo.
O controle é recomendado quando 50% ou mais das plantas amostradas estiverem na classe 2, aliado a condições de estresse hídrico e população de pulgões em crescimento. A presença de inimigos naturais da praga, como larvas e adultos de coccinelídeos (joaninhas), neurópteros (bicho-lixeiro) e parasitoides (vespinhas) deve ser observada, pois um grande número de predadores e parasitoides sugere que o controle natural está reduzindo a população de pulgões.
Controle
Atualmente há 29 produtos registrados no Brasil para o controle do pulgão-do-milho (AGROFIT, 2022). A grande maioria utiliza em sua formulação os ingredientes ativos acefato (organofosforado), acetamiprido e imidacloprido (neonicotinoides), associados ou não com piretroides. Aplicações em pleno florescimento devem ser evitadas, pois podem causar fitotoxidez e falhas de polinização. O tratamento de sementes não é efetivo no controle dessa praga (TOBIAS et al., 2017).
Embora a eficiência de controle desses produtos seja satisfatória, pode haver necessidade de reaplicação devido à alta capacidade reprodutiva da praga. Nesse caso, é importante realizar a rotação dos modos de ação, para evitar a seleção de populações resistentes. Por exemplo, se a aplicação de um organofosforado não houver controlado totalmente a praga, deve-se utilizar na sequência uma mistura de piretroide + neonicotinoide.
Em áreas com alta incidência e histórico de ocorrência da praga, o controle químico deve ser associado a práticas como a eliminação de plantas hospedeiras e o monitoramento desde a fase vegetativa, possibilitando a supressão da praga no início da infestação. Além disso, deve-se evitar o escalonamento de plantio, de forma a dificultar a dispersão da praga das lavouras mais velhas para as mais novas.
Além do milho, as culturas do milheto, sorgo, cevada, aveia e triticale também servem como hospedeiros da praga. O mesmo se aplica a gramíneas invasoras, como capim-marmelada (Brachiaria plantaginea), capim-colchão (Digitaria horizontalis) e capim-pé-de-galinha (Eleusine indica). Portanto, essas plantas daninhas devem ser eliminadas da lavoura e arredores.
Considerações finais
O pulgão-do-milho é uma praga típica de cultivos de safrinha, sendo favorecida por altas temperaturas e baixa pluviosidade. Suas características biológicas, como reprodução assexuada e curto ciclo de desenvolvimento, possibilitam um rápido crescimento populacional nas lavouras de milho. Por isso, o monitoramento deve ser rigoroso durante a fase vegetativa, com especial atenção ao cartucho das plantas.
Em condições de temperatura amena e pluviosidade regular, a aplicação de inseticidas químicos geralmente não é necessária, pois a população do inseto é naturalmente controlada por predadores e parasitoides. Quando há necessidade de controle químico, podem ser aplicados produtos à base de neonicotinoides. Piretroides e organofosforados (acefato) devem ser utilizados com cautela, devido ao seu amplo espectro de ação e efeito deletério sobre os inimigos naturais da praga.
Veja também: Análise semanal do mercado da soja
Referências:
AGROFIT. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Disponível em: http://agrofit.agricultura.gov.br/agrofit_cons/principal_agrofit_cons
Embrapa Trigo. Pulgão-do-milho (Rhopalosiphum maidis). 2006, Disponível em: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/74021/1/Pulgao-do-milho.pdf
FUNDAÇÃO MS. Pragas do Milho. Tecnologia e Produção: Soja e Milho 2011/2012. Disponível em: https://www.fundacaoms.org.br/base/www/fundacaoms.org.br/media/attachments/144/144/newarchive-144.pdf
TOBIAS, L. H. et al. Incidência do pulgão-do-milho em resposta ao tratamento de sementes com inseticidas químicos. XII Jornada Acadêmica da Embrapa Soja, 2017. Disponível em: https://www.alice.cnptia.embrapa.br/alice/bitstream/doc/1072774/1/108.pdf
Fonte: Equipe Mais Soja. Por: Henrique Pozebon. Imagem principal: Depositphotos/Jukree(Jukree Boonprasit).
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