cacau no Brasil
A vassoura-de-bruxa no cacau não foi apenas uma praga agrícola: há fortes indícios de sabotagem deliberada que derrubou o Brasil no mercado global, gerou crise social e nunca teve culpados condenados.
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A vassoura-de-bruxa no cacau é causada pelo fungo Moniliophthora perniciosa, que provoca deformações, queda de produtividade e morte das árvores. Embora o fungo seja nativo da Amazônia, seu surgimento simultâneo e fragmentado no sul da Bahia levantou suspeitas desde o início.
Nos anos 1980 e 1990, o Brasil era potência global no setor. A Bahia, em especial, era considerada um dos centros mais importantes do mundo para a produção cacaueira.
Com a disseminação da vassoura-de-bruxa no cacau, a produção regional despencou cerca de 75%. O Brasil saiu do grupo dos maiores exportadores e passou a importar o produto.
As consequências foram profundas:
Mais de 90% das propriedades afetadas eram pequenas ou médias, o que contradiz a narrativa de que apenas grandes produtores teriam sido atingidos.
Especialistas apontaram um fator-chave: os focos iniciais da doença surgiram sem continuidade geográfica, algo improvável em um processo natural. A praga “saltava” regiões inteiras, o que reforçou a hipótese de introdução humana deliberada.
O tema ganhou notoriedade com o documentário O Nó – Ato Humano Deliberado, que reuniu técnicos, agricultores e pesquisadores.
Anos depois, um ex-funcionário da Ceplac declarou ter participado da introdução proposital da praga. A justificativa apresentada variou ao longo do tempo: ora política, ora institucional.
Apesar da confissão pública, nenhuma condenação judicial ocorreu, e o caso foi encerrado sem responsáveis oficiais — um desfecho raro para um episódio com efeitos tão amplos.
Outro ponto crítico foi a atuação institucional no combate à vassoura-de-bruxa no cacau. Algumas orientações técnicas adotadas na época acabaram agravando a situação, segundo relatos posteriores e documentos oficiais.
A própria Ceplac reconheceu erros estratégicos, o que ampliou ainda mais as dúvidas sobre todo o processo.
Publicações científicas internacionais já discutiam, ainda nos anos 1990, a possibilidade de sabotagem econômica ligada ao mercado global do cacau. A revista Scientific American chegou a citar a praga brasileira em debates sobre biotecnologia e novas variedades genéticas.
Empresas multinacionais do setor, como a Mars, mais tarde participaram de projetos de sequenciamento genético do cacau ao lado da IBM e do governo dos EUA.
Mesmo décadas depois, a vassoura-de-bruxa no cacau permanece como um dos episódios mais obscuros da história agrícola brasileira:
Essas perguntas seguem abertas.
A história da vassoura-de-bruxa no cacau vai muito além de uma crise agrícola. Ela expõe como decisões humanas — ou omissões deliberadas — podem produzir impactos tão devastadores quanto guerras ou desastres naturais, mas sem deixar crateras visíveis. O que ficou na Bahia foram marcas silenciosas: lavouras abandonadas, cidades empobrecidas, famílias desestruturadas e uma região inteira empurrada para décadas de atraso econômico.
Os indícios técnicos de sabotagem, a confissão pública nunca devidamente julgada, o desaparecimento de provas e as recomendações institucionais equivocadas formam um conjunto de fatos difícil de ignorar. Mesmo que nunca se chegue a uma verdade judicial definitiva, o caso revela um padrão preocupante: quando interesses políticos, econômicos e institucionais se sobrepõem à vida real das pessoas, o prejuízo sempre recai sobre quem produz, trabalha e depende da terra para sobreviver.
Outro ponto central é a contradição do discurso “nobre”. A narrativa de que a destruição teria como objetivo enfraquecer grandes produtores não se sustenta diante dos dados: a imensa maioria das propriedades atingidas era composta por pequenos e médios agricultores. Ou seja, a vassoura-de-bruxa no cacau não atacou “barões”, mas sim a base produtiva, social e humana da região cacaueira.
O episódio também levanta um alerta contemporâneo. Em um mundo onde biotecnologia, patentes genéticas e controle de cadeias produtivas ganham cada vez mais espaço, a história da vassoura-de-bruxa mostra como crises podem ser usadas para justificar soluções concentradoras, dependência tecnológica e perda de autonomia dos produtores. Quando uma tragédia abre caminho para “salvadores” com soluções prontas, é legítimo perguntar: quem realmente ganha com o caos?
Por fim, talvez o aspecto mais inquietante seja o esquecimento. Um dos maiores colapsos agrícolas da história brasileira segue pouco debatido, sem responsabilizações claras e sem um processo profundo de memória e reparação. Enquanto isso, milhares de histórias como a de Deodato permanecem invisíveis — não por falta de provas, mas por falta de vontade política e institucional de encarar a verdade até o fim.
A vassoura-de-bruxa no cacau não foi apenas uma doença nas plantações. Foi uma ferida aberta na história do Brasil. E feridas que não são tratadas tendem a se repetir.
Imagem principal: IA.
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