Lírio-do-Brejo e Febre Maculosa: Estudo da USP Revela Cadeia Ecológica

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Para Quem Tem Pressa

  • Pesquisadores da USP identificaram uma cadeia ecológica que liga a expansão do lírio-do-brejo (Hedychium coronarium) ao aumento do risco de Febre Maculosa Brasileira.
  • A vegetação invasora serve como abrigo e alimento para capivaras, que carregam o carrapato-estrela, vetor da bactéria causadora da doença (com letalidade de até 55%).
  • Com auxílio da Ciência Cidadã e oficinas em Unidades de Conservação, os registros da planta no aplicativo iNaturalist aumentaram mais de 400% no estado de São Paulo.

Uma planta de flores brancas e perfume marcante, introduzida originalmente no Brasil com fins ornamentais, tornou-se o elo inicial de uma perigosa cadeia ecológica ligada à saúde pública. Um estudo conduzido pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) revelou como o lírio-do-brejo (Hedychium coronarium) vem alterando o comportamento de capivaras e favorecendo a transmissão da Febre Maculosa Brasileira (FMB) no estado de São Paulo.

Lírio-do-Brejo e Febre Maculosa: Estudo da USP Revela Cadeia Ecológica

O trabalho contou com a colaboração da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Durham University, do Reino Unido. O projeto foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) em parceria com o Natural Environment Research Council (NERC-UK), sob a coordenação da professora Vânia Regina Pivello.

O elo ecológico entre a planta e a bactéria

Originário da Ásia e pertencente à mesma família botânica do gengibre, o lírio-do-brejo domina áreas úmidas e margens de corpos d’água na Mata Atlântica. Em campo, os cientistas constataram que a proliferação dessa espécie — ao lado de outros vegetais exóticos, como o capim-elefante — passou a atrair populações de capivaras.

Os animais utilizam os adensamentos da folhagem densa tanto para repouso quanto como complemento alimentar, consumindo partes próximas à raiz. Ao se concentrarem nesses locais ribeirinhos, os roedores transportam consigo o carrapato-estrela (Amblyomma sculptum).

O artrópode atua como o principal vetor da Rickettsia rickettsii, bactéria causadora da febre maculosa. Trata-se de uma infecção aguda grave, cuja taxa de letalidade pode chegar a 55% dos casos registrados no país.

O papel da Ciência Cidadã no mapeamento

Mapear a extensão da planta invasora em todo o território paulista representava um desafio logístico para os grupos de pesquisa. Para contornar a limitação, os pesquisadores recorreram à Ciência Cidadã, organizando oficinas temáticas presenciais em Unidades de Conservação (UCs).

O treinamento envolveu gestores de parques, funcionários locais, professores e moradores das redondezas, que aprenderam a reconhecer a espécie botânica e a registrar suas coordenadas geográficas pelo aplicativo iNaturalist.

Os resultados da mobilização comunitária foram publicados no periódico científico Biota Neotropica:

  • Registros da espécie: saltaram de 54 para 212 no aplicativo, o que representa um aumento de 407,7% após as capacitações.
  • Engajamento comunitário: o número de observadores voluntários cadastrados subiu de 45 para 126, apontando avanço de 280%.

Segundo os autores, a metodologia desenvolvida pode funcionar como modelo piloto para monitorar invasões biológicas em outros biomas brasileiros.

Dificuldades de manejo e impacto hídrico

O diagnóstico detalhado da localização das colônias é fundamental para estruturar planos de contenção, visto que a erradicação total do lírio-do-brejo é considerada inviável. A planta possui alta capacidade de propagação vegetativa, brotando a partir de pequenos fragmentos de rizomas deixados no substrato.

Além da resiliência biológica, a localização às margens de cursos d’água restringe drasticamente as opções de controle. O uso de herbicidas convencionais nessas áreas é contraindicado devido ao risco direto de contaminação hídrica e intoxicação de peixes e crustáceos nativos.

A espécie invasora também libera substâncias na água com efeito prejudicial sobre o ecossistema local. Com o auxílio das marcações georreferenciadas enviadas pela população, as equipes esperam subsidiar políticas públicas de saúde e meio ambiente para conter o avanço da planta e interromper a rota de infecção próxima a áreas urbanizadas.

fonte/crédito: Imagem destacada ilustrativa gerada por IA.

Fonte principal: USP — ciência cidadã e mapeamento do lírio-do-brejo


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