Escassez de gado no Mercosul muda o jogo da carne
A escassez de gado no Mercosul pressiona preços e obriga frigoríficos a mudar estratégias, investir em valor agregado e vender melhor no mercado global.
Para Quem Tem Pressa
A escassez de gado no Mercosul já está mudando a dinâmica da indústria da carne. Com menos oferta, preços firmes e forte demanda internacional, frigoríficos serão forçados a abandonar o modelo baseado apenas em volume e commodity. O futuro passa por valor agregado, diferenciação e melhor posicionamento comercial — ou os próximos dois anos serão duros para quem não se adaptar.
Facebook Portal Agron, nosso canal do Whatsapp Portal Agron, o Grupo do Whatsapp Portal Agron, e Telegram Portal Agron mantém você atualizado com as melhores matérias sobre o agronegócio brasileiro.
Acompanhe aqui todas as nossas cotações
Escassez de gado no Mercosul força mudança estrutural
A escassez de gado no Mercosul começa a se consolidar como um dos fatores mais relevantes para o mercado de carnes nos próximos anos. Para o analista argentino Víctor Tonelli, o cenário aponta para menor disponibilidade de matéria-prima, preços firmes e pressão crescente sobre a indústria frigorífica para rever seu modelo de negócios.
Segundo ele, não se trata de um ajuste pontual, mas de uma transformação estrutural. “A matéria-prima será escassa”, alertou, ao projetar uma redução consistente na oferta regional de carne bovina.
Argentina terá queda significativa na produção
No caso da Argentina, Tonelli estima uma queda de quase 200 mil toneladas na produção de carne bovina em 2026, em comparação com a média dos últimos três anos. A recuperação só deve começar em 2027 — e ainda assim, sem retornar aos patamares históricos recentes.
Essa redução contribui diretamente para o cenário de escassez de gado no Mercosul, afetando não apenas o abastecimento interno, mas também a competitividade regional no mercado internacional.
Brasil perde vantagem histórica nos preços
O Brasil, maior produtor e exportador mundial de carne bovina, também passa por ajustes importantes. De acordo com Tonelli, o país já prevê uma redução de 3% a 4% na oferta de carne.
Esse movimento está ligado à necessidade de manter o plantel reprodutor e reconstruir a produção de bezerros — o que elimina uma vantagem histórica brasileira: preços do gado entre US$ 1,00 e US$ 1,20 abaixo da média regional.
“Isso impulsiona toda a região para cima”, afirmou o analista.
Efeito direto sobre Uruguai e Paraguai
A perda desse diferencial brasileiro fortalece os preços do gado em todo o Mercosul, especialmente em países como Uruguai e Paraguai.
Mesmo mantendo a liderança global, o Brasil já não consegue sustentar preços muito abaixo dos vizinhos, o que consolida a escassez de gado no Mercosul como um fenômeno regional, e não isolado.
Indústria frigorífica sob pressão
Com oferta restrita e demanda internacional aquecida, o mercado entra em uma fase de forte disputa por matéria-prima. Nesse ambiente, Tonelli é direto: os produtores pedirão preços que o mercado aceite — e terão poder de barganha.
O analista também foi crítico ao modelo tradicional da indústria frigorífica, que ainda insiste em vender carne de alta qualidade como commodity.
“Não dá para continuar vendendo carne de qualidade como se fosse tudo igual.”
Eficiência industrial, segundo ele, já não garante rentabilidade sozinha.
Valor agregado deixa de ser opcional
A escassez de gado no Mercosul força uma mudança de mentalidade. O foco precisa migrar do volume para o valor:
O que muda na prática:
- Mais valor agregado por corte
- Busca por nichos específicos
- Melhor posicionamento comercial
- Estratégias orientadas pelo mercado, não só pela planta
“O valor não estará apenas em produzir mais barato, mas em vender melhor”, resumiu Tonelli.
(E sim, vender melhor costuma doer menos do que tentar espremer custo quando não há gado.)
Dois anos decisivos para os frigoríficos
Para o analista, os próximos dois anos serão cruciais. Sem adaptação, a indústria enfrentará margens apertadas, competição intensa por gado e dificuldade para sustentar operações.
Por outro lado, o cenário internacional representa uma oportunidade clara: o mercado está disposto a pagar mais — desde que receba produtos bem posicionados, diferenciados e com estratégia comercial inteligente.
Conclusão
A escassez de gado no Mercosul não é apenas um desafio produtivo. É um teste estratégico para a indústria da carne. Quem insistir no modelo de commodity vai sofrer. Quem entender que o jogo agora é valor, não volume, pode sair mais forte desse novo ciclo.
Imagem principal: Depositphotos.

