Fungicidas agrícolas aceleram resistência a antibióticos no solo

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Para Quem Tem Pressa

Dois estudos conduzidos por pesquisadores do Trinity College Dublin revelaram que a aplicação de fungicidas no solo pode acelerar a seleção de bactérias resistentes a antibióticos utilizados na medicina humana. Além disso, os testes laboratoriais mostraram que o impacto desses defensivos se agrava quando associado ao aumento de temperatura, reduzindo a atividade biológica que sustenta o desenvolvimento vegetal e comprometendo a biomassa de culturas como a cevada. Os resultados alertam para interações ambientais que desafiam tanto a saúde pública quanto a resiliência agrícola.

Fungicidas agrícolas aceleram resistência a antibióticos no solo

A crise global da resistência antimicrobiana costuma ser atribuída quase exclusivamente ao uso inadequado ou excessivo de antibióticos na saúde humana e na pecuária. No entanto, pesquisas recentes desenvolvidas pela Escola de Genética e Microbiologia do Trinity College Dublin, na Irlanda, indicam que os fungicidas agrícolas também exercem um papel importante nesse cenário.

Dois artigos científicos detalham como esses produtos químicos atuam sobre os micro-organismos que habitam o solo, tanto isoladamente quanto sob estresse térmico decorrente de temperaturas mais altas.

Co-seleção e resistência a antibióticos clínicos

No primeiro estudo, publicado no periódico científico Evolutionary Applications, a equipe avaliou comunidades microbianas do solo submetidas a experimentos laboratoriais controlados durante 16 semanas. As amostras foram expostas a formulações de Fubol Gold, um fungicida anteriormente bastante utilizado na Irlanda e na União Europeia, hoje proibido no bloco, mas cujos resíduos ainda podem estar presentes em áreas rurais.

As análises genômicas demonstraram que a pressão exercida pelo produto selecionou rapidamente bactérias resistentes ao defensivo, com alterações identificáveis logo na quarta semana de exposição.

O dado mais crítico foi o fenômeno de co-seleção: ao desenvolverem mecanismos para tolerar o fungicida, os micróbios também adquiriram resistência a classes de antibióticos de amplo espectro prescritos para infecções clínicas humanas, como cloranfenicol, sulfatríade e ácido nalidíxico — medicamentos empregados no tratamento de enfermidades urinárias, oculares e intestinais.

Calor potencializa o dano dos fungicidas no solo

O segundo estudo, veiculado no The ISME Journal, investigou a interação direta entre a presença de fungicidas e a elevação da temperatura ambiente ao longo de 16 semanas de cultivo.

Quando aplicados de forma isolada, os fungicidas demonstraram impactos limitados em determinados indicadores de funcionamento do solo. No entanto, a combinação entre fungicidas e calor provocou uma queda severa na atividade microbiana geral, prejudicando a capacidade dos micróbios de metabolizar diferentes fontes de carbono.

Como o microbioma é responsável por reciclar nutrientes essenciais às lavouras, o estresse conjunto gerado por fungicidas e aquecimento comprometeu o desenvolvimento vegetal, resultando em menor biomassa em mudas de cevada semeadas no solo tratado.

A pesquisa revelou ainda que a exposição aos fungicidas deixou marcas duradouras: mesmo após o retorno a temperaturas normais, o microbioma continuou desestabilizado, evidenciando uma perda prolongada na resiliência da terra tratada com fungicidas.

Reavaliação no manejo e sustentabilidade

Segundo a pesquisadora Siobhán O’Brien, do Trinity College Dublin, as conclusões mostram que fungicidas agrícolas e variações climáticas não devem ser tratados como problemas isolados, pois atuam de forma combinada no campo.

Compreender o comportamento dos fungicidas diante do aquecimento global é fundamental para prevenir novas pressões de seleção bacteriana e adotar práticas de manejo que protejam a biodiversidade do solo e a eficácia dos medicamentos humanos.

fonte/crédito: Imagem destacada ilustrativa gerada por IA.


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