O preço do fosfato bicálcico e dos suplementos minerais disparou em 2026 devido a gargalos na oferta global de enxofre. Entenda os impactos na pecuária.
Para Quem Tem Pressa
Se você não tem tempo a perder, aqui vai o resumo do cenário: a baixa oferta e o encarecimento global do enxofre e dos fosfatados elevaram os custos de produção da pecuária brasileira em 2026. Com isso, o preço médio da saca de fosfato bicálcico subiu 17,8% no primeiro semestre do ano, atingindo R$ 164,18. O principal nó dessa crise está no Estreito de Ormuz, rota de 50% do enxofre global e palco de tensões geopolíticas. Sem substitutos viáveis para a nutrição de bovinos, os produtores enfrentam suplementos minerais mais caros e prazos de entrega estendidos.
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3 fatores que fizeram o fosfato bicálcico disparar 17%
Se a pecuária brasileira fosse uma máquina complexa, o fosfato bicálcico seria uma de suas engrenagens mais vitais. Infelizmente para o bolso do produtor, essa peça ficou consideravelmente mais cara ao longo de 2026.
As restrições severas na oferta global de enxofre e de produtos fosfatados provocaram um verdadeiro efeito dominó. O resultado prático foi a escalada expressiva nas cotações tanto do fosfato bicálcico quanto dos suplementos minerais de forma geral. Para entender como um conflito no Oriente Médio acaba encarecendo o cocho no interior do Brasil, precisamos analisar as engrenagens dessa cadeia química e logística.
O Insumo Estratégico que Vem de Fora
Popularmente conhecido pela sigla DCP (do inglês Dicalcium Phosphate), o fosfato bicálcico é a espinha dorsal quando falamos em fonte de fósforo para a nutrição animal. Ele é indispensável na formulação de rações e suplementos minerais para bovinos, aves, suínos e peixes. Afinal, cálcio e fósforo são elementos básicos para garantir que o rebanho tenha um bom desempenho reprodutivo e produtivo.
Industrialmente, a fabricação do fosfato bicálcico ocorre por meio da reação entre o ácido fosfórico e uma fonte de cálcio. Acontece que a matéria-prima do ácido fosfórico é a rocha fosfática — um recurso mineral cuja extração e oferta estão concentradas nas mãos de pouquíssimos países.
Embora o Brasil conte com reservas próprias e produza rocha fosfática, nossa produção doméstica passa longe de suprir a demanda interna das indústrias de nutrição animal e de fertilizantes. Dependemos, e muito, do mercado internacional.
O reflexo nos preços: Entre janeiro e junho de 2026, a cotação média do fosfato bicálcico (FOB São Paulo) saltou 17,8%, sendo comercializado por uma média de R$ 164,18 por saca de 25 kg.
O “Efeito Borboleta” do Enxofre no Estreito de Ormuz
Para entender a alta do fosfato bicálcico, é preciso olhar para o enxofre. Esse elemento é usado para produzir o ácido sulfúrico, que por sua vez é o reagente indispensável para extrair o ácido fosfórico da rocha fosfática. Se o enxofre encarece, toda a cadeia de fosfatados vai atrás.
O mercado de enxofre já havia entrado em 2026 sob forte pressão, herdando o desequilíbrio entre oferta e demanda registrado em 2025. Vale lembrar que a oferta de enxofre no mundo tem baixíssima elasticidade: ninguém refina petróleo ou processa gás natural apenas para extrair enxofre para a agropecuária; ele é um subproduto inevitável dessas atividades.
Em 2025, a Rússia (uma das maiores exportadoras mundiais) reduziu sua produção e passou a reter o insumo para consumo doméstico. Para piorar, refinarias globais registraram paradas técnicas não planejadas. No entanto, o verdadeiro estopim veio com o acirramento das tensões geopolíticas e o conflito entre os Estados Unidos e o Irã.
O embate afetou diretamente o Estreito de Ormuz, canal por onde escoa aproximadamente 50% do suprimento global de enxofre. O impacto para o Brasil foi imediato: em 2025, cerca de 42% do enxofre importado pelo país teve como origem o Oriente Médio.
Cotações de Enxofre Rompem Recordes de Seis Anos
A combinação de fretes marítimos nas alturas, seguros de carga proibitivos e o temor de bloqueios físicos no Estreito de Ormuz fez o mercado embutir um pesado prêmio de risco sobre as cargas de enxofre.
Mesmo sem uma paralisação total das indústrias, os embarques começaram a sofrer postergações e redirecionamentos. Em paralelo, grandes players globais correram para antecipar compras a fim de garantir estoques mínimos de segurança.
- No bolso do importador brasileiro: Em junho de 2026, o preço do quilo do enxofre importado pelo Brasil bateu recorde de seis anos, alcançando US$ 1,05/kg. Esse valor representa um aumento impressionante de 298,0% em 12 meses e uma alta astronômica de 595,9% se comparado a janeiro de 2025.
- Nas bolsas internacionais: No mercado chinês — grande baliza global para o comércio do produto —, a tonelada do enxofre ultrapassou os 10 mil yuans (equivalente a 1,5 mil dólares). Em 14 de julho de 2026, a cotação estava estabelecida em 9.119 yuans (1,3 mil dólares) por tonelada, o que representa um aumento de mais de 300% frente ao mesmo período de 2025.
O Funil de Oferta da China e os Impactos no Brasil
Além dos problemas com o enxofre, a oferta global de produtos fosfatados estruturados (como fertilizantes e sais de fosfato) segue severamente restrita.
Desde o encerramento do ano passado, o governo chinês optou por manter restrições severas às suas exportações de fertilizantes fosfatados para proteger seu mercado interno de solavancos inflacionários. Em 2026, Pequim adotou postura semelhante com o ácido sulfúrico. Como a China é peça-chave na produção desses insumos, o mercado internacional perdeu liquidez rapidamente.
No Brasil, a forte dependência de importações de rocha fosfática e ácido fosfórico fez com que as indústrias locais repassassem esses custos de forma quase imediata. A alta do frete marítimo global e a volatilidade do câmbio ajudaram a pavimentar o patamar elevado do fosfato bicálcico durante praticamente todo o ano.
Há Alternativas ao Fosfato Bicálcico?
Na nutrição animal, as saídas para fugir do fosfato bicálcico são bastante limitadas, o que mantém a demanda pelo mineral muito rígida e estável.
| Fonte Nutricional | Teor de Fósforo (%) | Cotação do Quilo do Fósforo (Junho/2026) | Restrição de Uso no Brasil |
| Fosfato Bicálcico | 18,0% | R$ 36,48 | Nenhuma (Uso universal) |
| Farinha de Carne e Ossos (FCO) | 4,0% | R$ 39,89 | Proibida para Ruminantes (Bovinos) |
| Farinha de Carne e Ossos (FCO) | 5,0% | R$ 31,91 | Proibida para Ruminantes (Bovinos) |
Como podemos ver na tabela, a Farinha de Carne e Ossos (FCO) desponta como alternativa barata e ainda agrega proteína para aves e suínos. Contudo, ela tem composição nutricional muito menos homogênea que o fosfato bicálcico.
Mais importante ainda: a FCO é estritamente proibida na alimentação de ruminantes (bovinos) no Brasil. Trata-se de uma barreira sanitária fundamental para impedir o surgimento da Encefalopatia Espongiforme Bovina, popularmente conhecida como a doença da “vaca louca”. Portanto, para quem cria bois, o fosfato bicálcico segue insubstituível.
Reflexos no Bolso: Suplementos Minerais Mais Caros
A indústria de suplementos minerais não conseguiu absorver a pressão de custos e repassou o reajuste do fosfato bicálcico para a ponta final da cadeia. Entre janeiro e junho deste ano, os suplementos minerais formulados para fornecimento de fósforo acumularam reajustes de 10,0% ou mais em suas tabelas de preços.
Além da barreira do preço, pecuaristas de diferentes regiões do Brasil relatam dificuldades pontuais de abastecimento no campo e um perceptível alongamento nos prazos de entrega das fábricas de ração.
O Que Esperar para o Próximo Semestre?
As perspectivas de curto prazo indicam que o preço do fosfato bicálcico deve se manter pressionado, variando entre a estabilidade em patamares elevados e novas altas pontuais.
O fluxo logístico no Estreito de Ormuz continua operando sob forte clima de incertezas. Do lado asiático, os estoques de enxofre estocados nos portos chineses fecharam o mês de junho de 2026 estimados em apenas 820 mil toneladas. O volume representa uma queda de 26,13% em relação a maio de 2026 e um recuo brutal de 63,0% na comparação com o mesmo período do ano anterior.
Com o consumo interno chinês superando consideravelmente o ritmo de reposição dos portos, a capacidade de o país asiático exportar enxofre para aliviar o mercado brasileiro é praticamente nula no horizonte próximo.
Imagem principal: Depositphotos.

