O El Niño 2026/27 pode ser o mais forte desde 1950. Com mais de 90% de chance de intensidade extrema, o fenômeno ameaça a safra brasileira. Veja os riscos.
Para Quem Tem Pressa
O El Niño 2026/27 entra na primavera com mais de 90% de probabilidade de atingir uma intensidade “muito forte” entre setembro e novembro, e uma chance de 69% de se tornar o evento mais intenso registrado desde 1950. O cenário cria uma nítida divisão produtiva no Brasil: enquanto o Sul se prepara para o excesso de chuvas, risco de cheias e atraso na semeadura de verão, o Centro-Norte enfrenta temperaturas elevadas, seca, atraso nas precipitações e risco crítico de queimadas em mais de 1.200 municípios. O fenômeno deve permanecer ativo até o início de 2027, impactando diretamente o plantio de soja, milho, pastagens e a colheita das culturas de inverno.
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El Niño 2026/27 pode ser o mais devastador desde 1950
O agronegócio brasileiro entra na primavera sob o sinal de alerta máximo. As projeções climáticas mais recentes indicam que o El Niño 2026/27 possui probabilidade superior a 90% de atingir intensidade classificada como muito forte durante o trimestre setembro-outubro-novembro (SON). O momento é crucial, pois coincide exatamente com a janela de implantação da safra de verão nas principais regiões produtoras do país.
As análises do Climate Prediction Center (CPC/NOAA), agência meteorológica dos Estados Unidos divulgadas no início de agosto, confirmam que o fenômeno — estabelecido em junho — permanecerá ativo pelo menos até o primeiro trimestre de 2027. Os dados integram o Boletim Mensal nº 3 do Painel El Niño 2026-2027, elaborado conjuntamente pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN), Serviço Geológico do Brasil (SGB), Defesa Civil Nacional e Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM).
Probabilidade de evento histórico e anomalias térmicas
Mais do que a manutenção do fenômeno, o que impressiona os cientistas é o seu potencial absoluto. Além dos 90% de chance de intensidade muito forte no trimestre de primavera, a NOAA estima em 69% a possibilidade de o El Niño 2026/27 se tornar o evento mais forte registrado desde 1950, adotando os critérios oficiais da agência, com anomalias de temperatura da superfície do mar superando os 2,5 °C.
O aquecimento no Oceano Pacífico Equatorial já atinge patamares elevados. Nas semanas monitoradas pelo boletim, as anomalias alcançaram:
- Região Niño 3.4: 1,8 °C
- Região Niño 3: 2,5 °C
- Região Niño 1+2 (costa oeste da América do Sul): 3,2 °C
Embora os órgãos oficiais ressaltem que a intensidade do fenômeno não se traduz matematicamente em consequências proporcionalmente severas em todas as localidades, a probabilidade de eventos extremos cresce de forma exponencial.
A divisão do mapa: Dois Brasis produtivos em choque
A previsão climática unificada elaborada por CPTEC/INPE, INMET e FUNCEME desenha um contraste geográfico marcante. O país praticamente se divide em dois regimes hídricos opostos.
| Região / Bloco | Tendência de Precipitação | Tendência Térmica | Principais Impactos no Campo |
| Sul, Sul de SP e MS | Acima da média histórica | Dentro ou acima da média | Risco de encharcamento, doenças fúngicas e cheias |
| Centro-Oeste e Sudeste | Abaixo da média (atraso de chuva) | Média acima do normal | Dificuldade na semeadura de verão e veranicos |
| Norte e Nordeste | Abaixo da média | Calor intenso e persistente | Estresse em pastagens e atraso no plantio |
Enquanto a Região Sul, parte do estado de São Paulo e Mato Grosso do Sul apresentam probabilidade de chuvas acima da faixa normal, o Norte, Nordeste e grande parte do Brasil Central (como Mato Grosso, Tocantins, norte de Goiás, Minas Gerais e Espírito Santo) atravessarão semanas de deficiência hídrica. As temperaturas ficarão acima da média em quase todo o território nacional, embora massas de ar frio possam provocar declínios pontuais em setembro.
Impactos diretos na Safra 2026/27: Soja, Milho e Pastagens
A combinação de calor e atraso na regularização das chuvas reduz a umidade no solo no momento exato em que os produtores preparam as máquinas para a semeadura.
Centro-Oeste e Sudeste
Em Mato Grosso, Goiás e no Distrito Federal, a chuva insuficiente pode atrasar a instalação da soja e expor as plântulas a veranicos. Embora o tempo seco ajude na finalização dos trabalhos de colheita remanescentes, a janela ideal de plantio fica comprometida. A umidade deve dar sinais de recuperação em novembro, beneficiando áreas de plantio tardio.
No Sudeste, o norte paulista, grande parte de Minas Gerais, o Espírito Santo e o norte do Rio de Janeiro enfrentam o mesmo desafio de falta de água na arrancada inicial.
Nordeste e Pecuária de Corte
Nos estados do Maranhão e Piauí, a seca tende a atrasar o calendário da safra. Para a pecuária, a persistência do tempo seco no Nordeste reduz a capacidade de suporte das pastagens dependentes de chuva e compromete o milho terceira safra. A transição para a estação chuvosa será mais lenta, exigindo suplementação no cocho e planejamento alimentar prolongado.
Região Sul: O Desafio da Água em Excesso
No extremo sul, o problema é o oposto. Precipitações volumosas mantêm a umidade alta, beneficiando algumas culturas de inverno e afastando o risco de geadas tardias. Contudo, o excesso traz sérios prejuízos:
- Aumento expressivo de doenças fitossanitárias;
- Dificuldade de tráfego de máquinas para colheita e plantio;
- Perda de qualidade comercial dos grãos;
- Atraso no estabelecimento das culturas de verão.
Vale destacar que, em julho de 2026, apenas 4% da área da Região Sul registrava seca fraca (no leste do Paraná). Sem déficit hídrico acumulado para absorver o volume previsto, o risco de cheias e inundações no Rio Grande do Sul é elevado.
Amazônia, Pantanal e Risco Crítico de Queimadas
O boletim do CENSIPAM alerta para chuvas abaixo da média no Amapá, Roraima, Pará, Maranhão, Amazonas, Acre, norte de Mato Grosso e porções de Tocantins e Rondônia. Associado a temperaturas elevadas em toda a Amazônia Legal e no Pantanal, o cenário indica um provável atraso no início do período chuvoso nessas regiões.
A consequência mais imediata é o risco de fogo. O monitoramento oficial contabiliza:
- 514 municípios em Alerta Alto de fogo;
- 706 municípios em situação de Alerta;
- 2.482 municípios sob estado de Atenção.
As áreas em Alerta e Alerta Alto somam cerca de 5,85 milhões de km², concentradas principalmente em Mato Grosso, no sul do Amazonas e no Pará. A vegetação seca aliada às altas temperaturas prolonga a janela crítica de incêndios florestais.
A confirmação de que o El Niño 2026/27 atingirá um patamar extraordinário exige que o produtor rural brasileiro não dependa unicamente da sorte quanto ao calendário de chuvas. Seja gerindo o estresse hídrico no Centro-Norte ou combatendo os efeitos do encharcamento no Sul, o planejamento estratégico e o manejo adaptativo serão os únicos divisores de águas na busca por rentabilidade nesta safra.
Imagem principal: Meramente ilustrativa gerada por IA.

