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Doença de Creutzfeldt-Jakob: O que a ciência realmente descobriu?

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Entenda o que a ciência já sabe sobre a doença de Creutzfeldt-Jakob, quais tratamentos estão em teste e o papel dos exames no diagnóstico precoce.

Para Quem Tem Pressa

O diagnóstico de doença de Creutzfeldt-Jakob no especialista em aviação Lito Sousa reacendeu dúvidas sobre a cura da enfermidade. Trata-se de uma patologia rara causada por prions que desestruturam proteínas no cérebro. Embora ainda não exista cura ou terapia capaz de reverter a degradação neuronal, 2026 marca um ponto de virada histórico: ensaios clínicos com oligonucleotídeos antisenso (ION717) e RNA de interferência (PRiSM) estão em teste em humanos para frear a produção da proteína defeituosa. Em paralelo, pesquisas pré-clínicas brasileiras lideradas pela UFRJ identificaram compostos da Moringa oleifera capazes de desorganizar agregados priônicos já formados, enquanto o exame RT-QuIC garante diagnósticos precisos em vida.

Creutzfeldt-Jakob


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Doença de Creutzfeldt-Jakob: O que a ciência realmente descobriu?

O diagnóstico de doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) no influenciador e especialista em aviação Lito Sousa, divulgado por sua família nesta sexta-feira (21), trouxe essa patologia extremamente rara para o centro das atenções públicas. Diante da comoção, emergiu a pergunta inevitável: afinal, a medicina moderna possui algum tratamento eficaz?

A resposta honesta divide-se em duas partes complementares. Por um lado, não existe hoje qualquer terapia capaz de deter ou reverter a progressão da DCJ; o manejo médico baseia-se estritamente em cuidados de suporte, alívio de sintomas e busca pelo máximo conforto do paciente. Por outro lado, pela primeira vez na história da medicina, candidatos promissores a medicamentos — projetados para atacar diretamente os mecanismos moleculares da enfermidade — começaram a ser testados diretamente em seres humanos.

Pesquisadores do Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), atuam em uma dessas frentes pré-clínicas. Para afastar falsas esperanças e perigosas desinformações, os cientistas enfatizam categoricamente: nenhum chá, extrato, suplemento de plantas ou cápsula comercializada atualmente trata ou cura a doença de Creutzfeldt-Jakob.


Como um prion se multiplica e destrói o tecido cerebral

A doença de Creutzfeldt-Jakob possui origem priônica. Prions não são vírus, bactérias nem parasitas, mas sim conformações anormais e patológicas de uma proteína naturalmente produzida pelo próprio organismo humano. Quando essa estrutura proteica altera sua dobragem tridimensional, ela passa a induzir as proteínas normais vizinhas a mudarem de forma, desencadeando uma destrutiva reação em cadeia.

Com o passar do tempo, esses agregados proteicos anormais acumulam-se progressivamente no tecido cerebral, comprometendo gravemente as funções neurológicas. Trata-se de uma condição raríssima, registrando uma incidência média de um a dois casos por milhão de habitantes a cada ano.

É fundamental destacar que a imensa maioria dos casos ocorre de forma esporádica, sem uma fonte infecciosa identificável ou histórico genético prévio, não sendo transmitida pelo contato social cotidiano. Esse quadro difere substancialmente da variante da DCJ (vDCJ), historicamente associada à epidemia da “vaca louca”. Portanto, receber o diagnóstico de DCJ não significa, de forma alguma, que o paciente tenha contraído a doença através do consumo de carne contaminada — um ponto de atenção abordado frequentemente no portal Agron sobre pecuária e saúde animal ao tratar de vigilância sanitária.


Duas estratégias inéditas chegam aos testes em pacientes

Para que a reação priônica continue se multiplicando, a proteína anormal precisa encontrar constantemente novas proteínas normais. Diante desse mecanismo, cientistas questionaram: por que não bloquear ou reduzir drasticamente a produção dessa matéria-prima celular?

1. Oligonucleotídeos Antisenso (ION717)

Essa é exatamente a proposta do ION717, um oligonucleotídeo antisenso desenvolvido pela Ionis Pharmaceuticals. A molécula interfere diretamente no RNA mensageiro utilizado pelas células cerebrais para sintetizar a proteína priônica. O ensaio clínico recrutou 56 participantes em 2024 e expandiu suas operações abrindo um novo braço de testes em março de 2026. A empresa farmacêutica projeta a divulgação dos primeiros resultados consolidados apenas para a partir de 2027.

2. RNA de Interferência (PRiSM)

Em abril de 2026, uma segunda frente terapêutica iniciou testes clínicos em humanos. O estudo PRiSM utiliza um pequeno RNA de interferência (siRNA), administrado via punção lombar, visando suprimir a síntese proteica priônica. Conduzido pelo Broad Institute em parceria com a UMass Chan, este ensaio de Fase 1 conta com 15 pacientes sintomáticos e foca prioritariamente em avaliar a segurança e a tolerabilidade do composto.

3. Reposicionamento do Efavirenz

Paralelamente, existe um ensaio randomizado e controlled por placebo registrado na China avaliando o efavirenz — um antirretroviral consagrado no tratamento do HIV. Em modelos experimentais pré-clínicos, a substância demonstrou capacidade de prolongar a sobrevida de camundongos infectados por prions, embora o estudo clínico ainda não tenha iniciado o recrutamento ativo de pacientes.

Vale ressaltar que nenhum dos dois primeiros ensaios clínicos possui centros de recrutamento no Brasil. Além disso, nenhuma dessas abordagens inovadoras provou, até o presente momento, ser capaz de interromper a doença de Creutzfeldt-Jakob em seres humanos.


O histórico de tentativas e a mudança de patamar científico

A busca por terapias contra os prions não é recente. No passado, drogas como quinacrina, doxiciclina, flupirtina e até mesmo um anticorpo monoclonal específico (utilizado sob licença compassiva especial no Reino Unido) foram rigorosamente testados em portadores de DCJ. Infelizmente, nenhum desses compostos alterou a evolução fatal ou o prognóstico da enfermidade.

Entretanto, a fase atual da pesquisa biomédica diverge frontalmente das tentativas anteriores. O que mudou não foi a garantia de resultado, mas a precisão da aposta científica: em vez de testar compostos genéricos, a ciência agora avalia moléculas desenhadas sob medida para interceptar o mecanismo molecular central da doença, com eficácia previamente comprovada em modelos animais.


O desafio dos agregados existentes: O avanço das pesquisas na UFRJ

As estratégias de RNA reduzem a oferta de matéria-prima para novos prions. Contudo, surge outro dilema complexo: o que fazer com a imensa massa de agregados proteicos já depositada no cérebro no momento do diagnóstico?

Como a doença de Creutzfeldt-Jakob apresenta progressão extremamente rápida, o processo de agregação já se encontra avançado quando os primeiros sintomas clínicos se manifestam. Por essa razão, a comunidade científica busca moléculas capazes não apenas de deter novas ligações, mas também de desestabilizar e desmontar estruturas já formadas.

Em um estudo inovador publicado em periódico internacional, pesquisadores da UFRJ, em colaboração com a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Universidade Federal de Goiás (UFG), investigaram a Moringa oleifera (popularmente conhecida como acácia-branca) como uma biblioteca natural de compostos biológicos.

Os cientistas ressaltam que não partiram da premissa ingênua de que a planta cura a doença; a pergunta científica foi se alguma molécula específica interagiria com a proteína priônica. Entre 18 compostos isolados do extrato bruto, exatamente dois — o ácido clorogênico e o ácido neoclorogênico — ligaram-se com alta afinidade à proteína, demonstrando capacidade de inibir novos agregados e desorganizar agregados pré-existentes em ensaios in vitro.

Implicações metodológicas e terapêuticas

  • Inovação Metodológica: O estudo provou ser possível “pescar” compostos ativos diretamente de extratos brutos complexos sem necessitar de exaustivos meses de fracionamento químico. Essa metodologia pode ser aplicada no garimpo de moduladores para qualquer doença amiloide (como Alzheimer e Parkinson).
  • Efeito de Desagregação: Raras moléculas conseguem desestruturar agregados já consolidados. Como os redutores de síntese proteica não eliminam o acúmulo existente, o tratamento eficaz de pacientes sintomáticos exigirá, muito provavelmente, uma abordagem combinada das duas estratégias.

Antes de qualquer aplicação clínica, esses achados precisam obrigatoriamente demonstrar eficácia em culturas celulares e modelos animais vivos, determinando a taxa de travessia da barreira hematoencefálica e os efeitos biológicos da degradação dos agregados.


A importância vital do diagnóstico preciso (Exame RT-QuIC)

Apesar da ausência de cura, avanços diagnósticos concretos já transformaram a medicina no Brasil. O teste RT-QuIC (Real-Time Quaking-Induced Conversion), disponível no laboratório especializado da UFRJ, detecta a conversão aberrante da proteína priônica no líquido cefalorraquidiano, confirmando com alta precisão a doença de Creutzfeldt-Jakob ainda em vida.

A forma esporádica da DCJ acomete principalmente indivíduos entre 60 e 70 anos de idade, manifestando-se por:

  • Rápido declínio cognitivo e perda severa de memória;
  • Alterações abruptas de comportamento e julgamento;
  • Dificuldade severa de marcha e perda de equilíbrio motor;
  • Movimentos involuntários (mioclonias) e perturbações visuais.

Como esses sinais clínicos sobrepõem-se aos de outras patologias neurológicas — muitas das quais reversíveis e tratáveis —, o diagnóstico diferencial definitivo é indispensável. O RT-QuIC encurta a peregrinação médica, descarta doenças tratáveis que mimeticamente simulam a DCJ, evita terapias fúteis ou invasivas, possibilita a implementação precoce de cuidados paliativos humanizados e fortalece a rede de vigilância epidemiológica nacional.


Esperança fundamentada em evidências científicas

A doença de Creutzfeldt-Jakob permanece como um desafio médico incurável e devastador. Em momentos de desespero familiar, a desinformação e as falsas promessas encontram terreno fértil. Os achados brasileiros com a Moringa oleifera representam uma promissora pista científica, e não um medicamento pronto para consumo.

No entanto, o paradigma mudou: a ciência deixou de apenas observar a destruição priônica para começar a testar ferramentas ativas de intervenção. Para uma enfermidade em que cada dia é precioso, os novos ensaios trazem uma esperança legítima — sempre acompanhada do rigor que a verdadeira ciência exige: a evidência.

A pesquisa citada conta com o apoio financeiro de órgãos de fomento público: o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

Imagem principal: Meramente ilustrativa gerada por IA.


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