Descarte de matrizes
O gráfico mostra o maior descarte de matrizes bovinas da história recente no Brasil. Esse movimento, explicado pelo ciclo pecuário e pela pressão econômica, deve gerar forte impacto nos preços da carne em 2025 e 2026, além de afetar o equilíbrio da oferta global.
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A imagem acima evidencia a variação mensal na oferta de fêmeas bovinas para abate, destacando dois movimentos cruciais:
Retenção (azul): quando o pecuarista segura matrizes para reprodução.
Descarte (vermelho): quando decide abatê-las, muitas vezes por pressão de custos ou estratégia de mercado.
Nos últimos meses, o vermelho domina com intensidade nunca vista. O consultor Rogério Goulart alerta que esse é o maior descarte de matrizes já registrado, e a consequência disso será enorme: menos vacas hoje significa menos bezerros amanhã — e, inevitavelmente, carne mais cara no futuro.
Esse fenômeno se encaixa perfeitamente no chamado ciclo pecuário, que alterna fases de expansão e contração do rebanho. Segundo análise da CME Group, o mundo vive um momento de contração, em que a necessidade de caixa leva ao abate de fêmeas, seguido depois por uma fase de retenção para reconstrução dos plantéis.
No Brasil, essa lógica se intensifica com a combinação de:
Preços firmes da arroba, pressionados pela menor oferta (ERS, USDA, 2025-2026).
Custos elevados de produção, sobretudo grãos e insumos.
Necessidade de caixa imediato por parte dos produtores.
O ritmo de recuperação dos plantéis vai depender fortemente de chuvas e disponibilidade de pastagens em 2025. Se o clima não colaborar, a tendência é de novos descartes, já que o custo de manter matrizes improdutivas se torna insustentável.
Além disso, programas de verificação, como o USDA Process Verified Program, estão elevando o padrão de gestão e de descarte. O Brasil, maior exportador mundial de carne bovina, precisa se adaptar para atender às exigências de mercados cada vez mais rigorosos.
Goulart resume com ironia: “tempos interessantes pela frente”. A frase traduz bem o que os números indicam:
Oferta menor de carne bovina no médio prazo.
Volatilidade nos preços, tanto no mercado físico quanto nos futuros.
Pressão global, já que o Brasil responde por mais de 20% das exportações mundiais.
Em outras palavras, o descarte recorde de hoje é o combustível para uma possível escalada de preços amanhã. Para o consumidor, o contrapeso pode vir do aumento da produção de aves e suínos. Para o produtor, o desafio será equilibrar caixa imediato e visão de longo prazo — afinal, reconstruir matrizes leva tempo.
O descarte recorde de matrizes bovinas no Brasil não é um evento isolado, mas sim o reflexo de uma confluência de fatores econômicos, climáticos e estruturais do setor pecuário. Ao mesmo tempo em que garante liquidez imediata ao produtor, ele compromete a capacidade de reposição do rebanho, abrindo caminho para um cenário de escassez de bezerros e consequente valorização da carne nos próximos anos.
Essa dinâmica ilustra, com clareza, a força do ciclo pecuário: momentos de pressão financeira e custos elevados levam ao abate de fêmeas, mas o efeito retardado dessa decisão impacta toda a cadeia, do preço do boi gordo até o valor pago pelo consumidor final no supermercado. Em outras palavras, o alívio financeiro de curto prazo se transforma em um desafio de médio e longo prazo, exigindo maior planejamento estratégico por parte dos pecuaristas.
Além disso, a recuperação do setor não dependerá apenas da decisão dos produtores. Condições climáticas, custos de insumos e novas exigências regulatórias internacionais — como certificações do USDA e padrões ambientais mais rigorosos — terão papel decisivo na velocidade de recomposição do rebanho. Essa combinação pode tornar a reconstrução mais lenta e onerosa, colocando o Brasil diante de um teste de resiliência e adaptação.
No plano internacional, a relevância do Brasil como maior exportador de carne bovina amplia ainda mais o impacto desse movimento. Menor oferta doméstica significa não apenas pressão sobre os preços internos, mas também sobre os contratos futuros e a formação de preços no mercado global, afetando importadores da Ásia, Europa e Oriente Médio.
Por fim, para o consumidor, a tendência aponta para carne bovina mais cara, o que pode acelerar a substituição por proteínas alternativas, como aves e suínos. Para o produtor, o dilema é claro: equilibrar a necessidade de caixa imediato com a visão estratégica de longo prazo, já que a reconstrução de matrizes é lenta e custosa.
Em síntese, o atual descarte de matrizes é um divisor de águas. Ele antecipa um ciclo de turbulência em que preços voláteis, maior seletividade de mercados e pressões ambientais vão redefinir o equilíbrio da cadeia da carne. O Brasil, como protagonista desse mercado, terá de navegar com cautela entre a urgência do presente e as exigências do futuro.
Fonte: Rede X / Rogério Goulart.
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