O beija-flor, também chamado de colibri, consegue voar para trás porque combina rotação das asas, produção de sustentação nas duas etapas da batida e ajustes na direção das forças que o mantêm no ar. A manobra aparece em uma cena comum: depois de alcançar o néctar, a ave se afasta da flor sem precisar virar o corpo primeiro.
Esse recuo exige mais do que bater as asas depressa. O animal precisa continuar sustentando o próprio peso enquanto modifica o movimento para se deslocar na direção oposta àquela para a qual aponta o bico. Estudos com filmagens de alta velocidade mostram que asas e postura corporal participam dessa coordenação.
Três detalhes ajudam a entender o que acontece naquele intervalo que, a olho nu, costuma parecer apenas um borrão.
1. As asas do beija-flor giram ao mudar de direção
As asas não funcionam como placas rígidas que apenas sobem e descem. Durante a batida, elas também giram em torno do próprio comprimento, modificando a orientação de sua superfície em relação ao ar.
Essa rotação permite que a asa encontre o ar em uma posição favorável quando inverte o sentido do movimento. É uma diferença importante para uma ave que precisa permanecer diante de uma flor e realizar deslocamentos curtos com precisão.
Embora o ombro participe da mecânica, atribuir toda a habilidade a essa articulação simplifica demais a anatomia. Uma pesquisa com imagens de raios X mostrou que o punho tem participação expressiva na rotação da asa durante a fase de retorno. O movimento também envolve outras articulações e deformações das penas e dos tecidos.
Portanto, a asa muda de orientação ao longo de cada ciclo. Essa capacidade ajuda a explicar por que sua trajetória pode ser ajustada a diferentes situações de voo.
2. A volta da batida também ajuda a sustentar o corpo
No voo parado, o beija-flor produz sustentação tanto na fase descendente quanto na ascendente da batida. Isso acontece porque a asa muda de orientação entre as duas etapas, permitindo que o retorno também contribua para manter a ave suspensa.
As duas metades do movimento, porém, não devem ser tratadas como equivalentes. Produzir sustentação em ambas não significa que cada uma sustente exatamente metade do peso.
Em determinadas vistas, a ponta da asa descreve uma trajetória semelhante a um oito durante o voo parado. Esse desenho ajuda a visualizar a combinação de deslocamento e rotação, mas não representa um molde fixo para todas as manobras: pesquisas identificaram mudanças na trajetória conforme a velocidade de voo.
Para entender o recuo, o ponto central é este: a ave dispõe de um ciclo de batida que mantém a sustentação enquanto permite ajustes no movimento.
3. O beija-flor ajusta o plano e o ritmo das batidas para recuar
A capacidade de ficar suspenso fornece parte da explicação, mas voar para trás exige outra coordenação. O beija-flor altera a relação entre a posição do corpo e o plano em que as asas se movimentam.
Em um estudo publicado em 2012 no Journal of Experimental Biology, pesquisadores observaram beija-flores-de-anna em um túnel de vento. Durante o voo para trás, as aves mantiveram o corpo mais erguido e flexionaram a cabeça, além de modificar características das batidas.
Entre os ajustes estavam uma frequência maior e uma mudança na proporção de tempo dedicada às duas fases do movimento. Esses resultados mostram que o recuo envolve uma reorganização do voo, com participação conjunta das asas e da postura.
Ao observar um beija-flor se afastando de uma flor, vale acompanhar o corpo inteiro. O bico continua voltado para o alimento, mas a postura e as asas já estão coordenadas para a saída. O movimento do pássaro que parece tão simples depende de controlar, ao mesmo tempo, a sustentação e a direção do deslocamento.
