A agricultura irrigada pode crescer cinco vezes mais no Brasil. Descubra os dados do estudo da Abimaq e USP/Esalq sobre produtividade, lucros e polos.
Para Quem Tem Pressa
O agronegócio brasileiro possui potencial técnico para expandir em mais de cinco vezes a sua área atual sob agricultura irrigada, saltando dos atuais 8,19 milhões de hectares para impressionantes 55,8 milhões de hectares. Um estudo inédito da Abimaq em parceria com a USP/Esalq revela que a técnica eleva o rendimento das lavouras em 30% na comparação com o sequeiro. Contudo, o avanço esbarra em juros altos, restrição de crédito e falta de políticas públicas. Sorriso (MT) lidera o potencial de expansão absoluta até 2040, enquanto grãos como a soja dominam o uso da tecnologia.
O agronegócio brasileiro está diante de uma oportunidade bilionária de crescimento vertical que depende menos de abrir novas fronteiras e mais de usar a tecnologia disponível. Um estudo detalhado e recém-divulgado, fruto da parceria entre a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) e a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (USP/Esalq), comprova que o país tem capacidade técnica para multiplicar por mais de cinco vezes a sua área sob agricultura irrigada, alcançando a marca histórica de 55,8 milhões de hectares.
Atualmente, essa tecnologia de cultivo ocupa cerca de 8,19 milhões de hectares em território nacional. O avanço representa um escudo estratégico em uma era marcada por extremos climáticos e margens de lucro cada vez mais espremidas na porteira.
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O Gargalo do Financiamento e o Peso do Clima
Apesar de o setor enxergar o investimento com urgência, o ritmo de adoção não acompanha o desejo do produtor. No cenário macroeconômico atual, os agricultores enfrentam um ambiente de crédito restrito, taxas de juros elevadas e margens financeiras apertadas.
Luiz Paulo Heimpel, Vice-presidente da Câmara Setorial de Equipamentos de Irrigação da Abimaq (CSEI), destaca a existência de barreiras burocráticas e econômicas. Segundo o executivo, há um claro represamento na liberação de recursos para investimentos vindos do Plano Safra. Heimpel reforça que o mercado necessita de alternativas urgentes de financiamento, tanto para quem deseja ampliar os sistemas existentes quanto para os novos irrigantes.
A urgência ganha força com as constantes ameaças climáticas. O fenômeno El Niño e a previsão de intensas ondas de calor — especialmente na faixa que liga a região central ao Nordeste brasileiro — deixam produtores e a indústria em alerta. Nesse cenário, o uso racional da água surge como a principal estratégia para mitigar perdas e garantir a estabilidade da produção de alimentos.
Radiografia Atual e o Mapa da Expansão
O levantamento técnico detalha como os 8,19 milhões de hectares atuais estão distribuídos por tecnologia. Os sistemas de pivô central lideram o mercado nacional, respondendo por 29,4% do total. Logo atrás, a irrigação por inundação abrange 24,64% da área, marcando forte presença nos cultivos de arroz em terras baixas. Para efeito de comparação com o horizonte total de plantio, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima a área atual de grãos do país em 83,5 milhões de hectares para a safra 2025/26.
Os pesquisadores da USP/Esalq identificaram que o potencial remanescente para a agricultura irrigada (cerca de 55,85 milhões de hectares aptos) não exige desmatamento, pois está estrategicamente distribuído em solos já convertidos:
- 26,69 milhões de hectares em áreas agrícolas atuais de sequeiro;
- 26,73 milhões de hectares em áreas atualmente ocupadas por pastagens;
- 2,43 milhões de hectares em áreas agropecuárias que contam com disponibilidade hídrica subterrânea.
A viabilização desse ecossistema exige, além de linhas de crédito atraentes, investimentos pesados em infraestrutura básica, como redes de energia elétrica robustas nas fazendas e agilidade nas concessões de outorgas de uso da água.
Os Sete Maiores Polos de Crescimento do País
O estudo elencou sete municípios que já contam com uma base estrutural de irrigação consolidada e reúnem as melhores condições para capitanear essa expansão. Juntas, essas cidades somam 704 mil hectares irrigados por pivô, o que equivale a 37,1% de toda a área irrigada agrícola do Brasil.
Os principais polos identificados são:
- Barreiras (BA)
- Santa Maria da Vitória (BA)
- Unaí (MG)
- Patos de Minas (MG)
- Sorriso (MT)
- Cruz Alta (RS)
- São Luiz Gonzaga (RS)
A cultura da soja é a grande protagonista nesses sistemas. A oleaginosa responde, em média, por 67,8% da área irrigada total do Brasil. Em Mato Grosso, esse índice atinge impressionantes 98,2%.
As projeções de curto e médio prazo mostram que Minas Gerais lidera o potencial de expansão regional com 270 mil hectares adicionais, seguido de perto pela Bahia (267 mil ha), Rio Grande do Sul (137 mil ha) e Mato Grosso (112 mil ha). Quando analisado o incremento absoluto por município até o ano de 2040, Sorriso (MT) assume a liderança nacional com 212 mil hectares projetados. Em seguida aparecem Patos de Minas (182 mil ha), Barreiras (149 mil ha) e Santa Maria da Vitória (117 mil ha).
O Impacto Direto nas Sacas por Hectare
Os números históricos validam o investimento: a produtividade média das lavouras que utilizam agricultura irrigada é 30% superior aos cultivos que dependem exclusivamente das chuvas (sequeiro). Avaliando o impacto específico no cultivo da soja entre os anos de 2013 e 2023, os modelos estatísticos da USP/Esalq apontam que cada aumento de 1% na área irrigada gera um incremento de +0,0698% no rendimento por hectare.
Esse impacto ganha contornos ainda mais expressivos quando analisado regionalmente. O mesmo acréscimo de 1% na área tecnológica gera variações positivas distintas: na Bahia o ganho é de +0,1405%, em Mato Grosso é de +0,0631% e em Minas Gerais atinge +0,0594%.
Na prática, ao dobrar a área irrigada (aumento de 100%), o produtor colhe retornos diretos na produtividade média regional:
- Bahia: +5,33 sacas por hectare;
- Mato Grosso: +2,41 sacas por hectare;
- Minas Gerais: +2,27 sacas por hectare.
Retorno Financeiro Local e Geração de Empregos
Além do ganho direto para o bolso do produtor, a consolidação da agricultura irrigada atua como um motor de desenvolvimento socioeconômico regional. O levantamento utilizou como base um incremento médio municipal de 1.567 hectares (ou 28,7% da área irrigada média por município) no intervalo de uma década (2013-2023) para mensurar os impactos na economia local.
No curto prazo, essa expansão eleva o Valor Adicionado Bruto (VAB) da agropecuária municipal em cerca de R$ 8,27 milhões. A produtividade média das culturas temporárias ganha R$ 164,58 por hectare e o mercado de trabalho formal ganha nove novos postos de emprego. Com a estabilização da produção e a redução dos riscos de quebra de safra, a demanda por crédito agrícola emergencial recua R$ 5,57 milhões no mesmo período.
No longo prazo, os efeitos desse mesmo acréscimo de 1.567 hectares convergem para resultados perenes e consolidados:
- R$ 13,98 milhões de incremento no Valor Adicionado Bruto local;
- R$ 127,42 por hectare de aumento contínuo na produtividade das culturas temporárias;
- Três empregos formais adicionais mantidos na estrutura do município;
- R$ 7,0 milhões de redução na dependência de linhas de crédito de custeio.
Em termos absolutos, a pesquisa conclui que cada único hectare que passa a contar com tecnologia de irrigação gera uma ampliação de aproximadamente R$ 8.921 no Valor Adicionado Bruto da agropecuária do município, injetando riqueza direta no interior do país.
Imagem principal: Meramente ilustrativa gerada por IA.

