Para Quem Tem Pressa
O fenômeno do adensamento lenhoso está transformando o Cerrado aberto em florestas fechadas devido à falta crônica de queimadas naturais e controladas. Esse avanço desenfreado de árvores bloqueia a luz solar na superfície, forçando as plantas rasteiras do ecossistema a gastar todas as suas valiosas reservas de energia subterrâneas até morrerem de fome (por inanição de carbono). Pesquisadores alertam que o sumiço desse estrato herbáceo destrói a biodiversidade e altera profundamente o ciclo hidrológico.

O Reino da Inanição no Cerrado Brasileiro
O Cerrado brasileiro, um dos biomas mais ricos em biodiversidade do planeta, enfrenta uma ameaça silenciosa que altera de forma drástica sua paisagem nativa. Conhecido por sua savana aberta, onde um tapete contínuo de gramíneas, ervas e subarbustos convive em equilíbrio com árvores de troncos retorcidos, o bioma sofre hoje com o adensamento lenhoso. O avanço descontrolado de árvores, impulsionado sobretudo pela ausência de incêndios naturais, impede que a luz solar chegue ao solo, eliminando a vegetação rasteira por um severo processo de fome energética.
Um estudo liderado pelo professor Davi Rodrigo Rossatto, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Jaboticabal, e publicado na prestigiada revista Annals of Botany, revela que o declínio do estrato herbáceo vai muito além de uma simples intolerância à sombra. As plantas baixas não morrem imediatamente pela escuridão; em vez disso, elas iniciam um doloroso e lento esgotamento de suas reservas de energia subterrâneas, definhando até a completa exaustão de seus recursos vitais.

O Bloqueio de Luz e o Desequilíbrio Energético
Historicamente, o Cerrado evoluiu sob regimes frequentes de fogo, provocados por raios ou ação humana ancestral. Esses incêndios cíclicos controlavam o avanço de árvores e estimulavam o rebrote imediato de gramíneas dotadas de raízes profundas. Com a supressão prolongada dessas queimadas — comum em unidades de conservação mal planejadas onde o fogo é visto erroneamente como o único vilão —, as árvores se multiplicam sem barreiras, criando uma cobertura vegetal espessa.
Esse teto de folhas reduz a incidência de luz de forma drástica. Enquanto áreas abertas recebem entre 400 e 1.700 micromoles de fótons por metro quadrado por segundo, as zonas afetadas pelo adensamento lenhoso registram picos miseráveis de 6 a 30 micromoles. O valor fica muito abaixo do ponto de compensação luminosa necessário para a sobrevivência vegetal. Para tentar sobreviver nesse cenário sombrio, as plantas modificam sua estrutura física, gerando folhas mais finas. Porém, essa adaptação desesperada eleva a respiração no escuro em até 80% e despenca a taxa máxima de fotossíntese, tornando o balanço de carbono permanentemente negativo.
O Esgotamento das “Caixas de Reserva” Subterrâneas
Os órgãos subterrâneos do estrato herbáceo, como rizomas e tubérculos, operam como cofres de segurança que estocam água, carboidratos e nutrientes essenciais. No Cerrado saudável, essas estruturas garantem um crescimento vigoroso após a seca. Contudo, sob o impacto do adensamento lenhoso, a fotossíntese deficiente é incapaz de repor o estoque consumido na manutenção das folhas sombreadas.
As plantas passam a sobreviver da “fotossíntese do passado”, drenando as energias antigas até o colapso completo. Esse processo de inanição de carbono varia de velocidade conforme a espécie. As gramíneas, menos eficientes na sombra e com estruturas menores, desaparecem primeiro. Já plantas com estoques robustos, como a Andira humilis (conhecida como árvore subterrânea), resistem por décadas operando no limite com pouquíssimas folhas, camuflando a degradação progressiva do ecossistema por anos. Afinal, a natureza também sabe fingir que está tudo bem enquanto o estoque de energia zera.
Consequências Ecológicas e o Manejo do Fogo
A destruição do estrato herbáceo desestabiliza a base da biodiversidade local, prejudicando polinizadores, herbívoros e cadeias alimentares inteiras. De forma paradoxal, o aumento do número de árvores resulta em menos diversidade biológica e reduz a resiliência climática regional. O adensamento lenhoso também reduz a oferta de forragem para o gado em pastagens extensivas e compromete comunidades tradicionais que dependem de plantas medicinais.
Apoiada pela FAPESP por meio do Programa BIOTA, a pesquisa reforça que o combate ao adensamento lenhoso exige estratégias modernas, como o manejo integrado do fogo. A aplicação de queimadas prescritas e controladas serve como ferramenta científica vital para limpar o excesso de biomassa arbórea e restaurar a estrutura savânica aberta. Ignorar essa necessidade e enxergar o avanço arbóreo como um falso “enriquecimento florestal” é aceitar a simplificação destrutiva de uma das paisagens mais ricas do mundo.
imagem: IA

