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Integração com pecuária deve ditar produção agrícola

POR VINICIUS GALERA*, DE ITIQUIRA (MT)

Diante da maior safra da história, mas pressionado por nematóides, Mato Grosso, maior produtor de sojamilho boi no país, deve intensificar a rotação de culturas e, num futuro próximo, integrar cada vez mais agricultura e pecuária. É o que pensam os pesquisadores da Fundação MT. “Fico preocupado com as poucas opções de culturas que temos no setor tropical do Cerrado. Milho e soja são uma constante, fomentam e dão dinheiro para o agricultor, mas há a necessidade de uma nova cultura ou de novas práticas como a pecuária entrarem nesse sistema”, diz o diretor-presidente Francisco Soares Neto.

A Fundação, uma instituição privada mantida por fomentadores, está focada em realizar pesquisas sobre a integração com a pastagem. “Vejo a pecuária entrando e tendo uma boa participação, servindo como opção de rotação e manejo em áreas velhas de soja e em solos carregados de nematóides”, explica o diretor.

Nas últimas safras, Mato Grosso vinha de um crescimento de 4 a 5% na produtividade da soja, mas no último ciclo houve uma quebra provocada principalmente por problemas climáticos. A projeção para este ano é que o ritmo de crescimento seja retomado.

“Em vinte anos o sistema de produção mudou muito. A safra 1999/2000 foi a primeira em que a produtividade da soja alcançou 50 sacas por hectare. Talvez agora esse número chegue a 53 ou 54 sacas”, diz Leandro Zancanaro, coordenador do Programa de Monitoramento e Adubação (PMA) da Fundação.

Essa produtividade só é possível graças a uma integração no manejo das lavouras. “Hoje nós não conseguimos mais resolver alguns problemas pensando isoladamente. Você não consegue manejar nematóides, uma das maiores pragas do solo, apenas fazendo rotação de culturas, aplicando produtos químicos. Nós temos que pensar também na genética, no manejo integrado, que vale para pragas e doenças, diz Claudinei Kappes, membro do PMA.

A visão sistêmica serve principalmente para a sucessão dos principais plantios do Estado. “A integração é necessária em função da complexidade do sistema de produção marcado por sucessão, seja soja-milho ou soja-algodão. Essa integração deve ser cada vez mais encarada para você ter resultado ao longo do tempo”, explica Claudinei.

No futuro, mesmo com os manejos integrados, a manutenção do sistema sucessivo pode não ser suficiente. Os pesquisadores acreditam que não será possível manter a intensidade da produção sem a alternância com outros sistemas, como a rotação de culturas e a pastagem.

“O nematoide acabou se beneficiando desse sistema soja-milho”, diz Claudinei. Ele alerta que, hoje, apenas a limitação da produtividade pode determinar a mudança. “Enquanto não tivermos alternativas econômicas ou que justifiquem uma real rotação de culturas, que é quando o nematoide limita a produtividade, dificilmente [o produtor] faz, exceto o agricultor e pecuarista”.

Solos arenosos

Os sistemas integrados podem, ainda, elevar a produção do Estado. Um estudo feito pelo Instituto Mato Grossense de Economia Agorpecuária (Imea) diz que, até 2020, Mato Grosso deve ter cerca de 15 milhões de hectares de plantio. Desse total, cerca de 30% serão de solos arenosos (com alto teor de argila), uma área equivalente a cerca de 2 milhões de hectares, muitos dos quais são hoje áreas pastagens degradadas.

Pensando na viabilidade desses terrenos, a Fundação começou, no ano passado, um trabalho em parceria com a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja) na cidade de Campo Novo dos Parecis. “A ideia é gerar informação para essa grande demanda que vai haver de manejo de solos arenosos, já existe hoje mas vai ter muito mais daqui a dez anos”, diz Francisco.

 

Para Leandro Zancanaro, a integração lavoura-pecuária pode ser alternativa para os solos arenosos. “Cada ambiente tem uma aptidão e protocolos diferentes. É preciso envolver manejos diferenciados nos solos arenosos”.

O diretor-presidente Francisco Soares Neto explica que a pecuária já está virando uma nova opção para os produtores, mas ainda é pouco. Para ele, experiências como as que hoje são feitas com o trigo no Cerrado podem avançar, mas também não bastam. “Temos que pensar em viabilizar girassol, milheto, sorgo, em alternativas que hoje não são economicamente muito viáveis, mas que em algum momento vão ter que entrar nos sistemas de produção”.

Ainda que o futuro próximo seja o da integração com a pecuária, os sistemas de Integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) estão mais distantes em Mato Grosso, dizem os pesquisadores.

A Fundação MT promove, nos dias 2 e 3 de fevereiro um dia de campo em Itiquira, próximo a Rondonópolis, para demonstrar seus experimentos.

* O jornalista viajou a convite da Fundação MT.

Revista Globo Rural

gustavo henrique leite mota piesanti

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