Em pleno período de safra, os preços do boi continuam pressionados. E, a poucas semanas da entressafra, não há muita perspectiva de recuos. O mercado continua bastante forte e até mesmo a suspeita do caso atípico de vaca louca não conseguiu derrubar os preços de uma forma consistente.
A queda atual, pequena, é provocada mais por uma oferta ocasional. A avaliação é de José Vicente Ferraz, especialista no setor e diretor da Informa Economics FNP. Em um mercado de boa oferta, o caso de vaca louca teria derrubado o preço de R$ 5 a R$ 10 por arroba, afirma. A arroba está em R$ 124,00 em São Paulo.
Ferraz diz que o mercado mostra essa consistência nos preços devido a um problema estrutural. Os investimentos na pecuária caminham a passos lentos, a oferta diminui e a demanda cresce. “Um outro agravante é que os principais concorrentes do Brasil vivem situação semelhante ou até pior”, diz. No mercado interno há um gargalo na oferta. Isso resulta em uma mudança de patamar no preço de bezerros e bois magros, sem perspectiva de queda.
Esse gargalo vem da mudança de cenário na agropecuária nos últimos anos, quando a produção de grãos, com margens melhores, passou a ocupar parte das melhores áreas de pastagens. Em um período em que as margens se reduziram e os custos ficaram maiores, os pecuaristas reduziram os investimentos.
“Com isso, a produtividade não cresceu como se esperava. Oferta menor e demanda maior trouxeram os preços para os patamares atuais”, diz Ferraz. A menor oferta brasileira ocorre em um período de demanda externa maior e de problemas também nos demais países produtores. Os argentinos, tradicionais fornecedores de carne, diminuíram a participação no mercado devido a políticas equivocadas e a ocorrências climáticas. Uma recuperação ainda vai demorar, segundo o diretor da Informa.
Os norte-americanos sofrem com a elevação dos custos, que vem de uma redução na oferta de mão de obra e de uma alta nos preços dos insumos. A queda de rentabilidade afeta a oferta de carne no mercado. Já os australianos não conseguem ter de dois a três anos de clima normal, o que eleva custos e reduz produção.
Sem área para expansão, os pecuaristas do país só podem elevar a oferta por meio de ganho de produtividade. O Uruguai não tem mais áreas para expansão, e a Índia, uma das esperadas fornecedoras de carne no mundo, tem limitações de produção e não deverá exercer esse papel, afirma Ferraz.
Fonte: Jornal Folha de S. Paulo.
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