Muvuca de sementes na agrofloresta: como restaurar e atingir as metas do clima para o planeta

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Técnica utilizada no projeto de restauração da Mata Atlântica tem a capacidade de estabelecer de duas a 10 vezes mais árvores por área, por até um terço do custo de um plantio feito apenas com mudas

Plantar três trilhões e meio de árvores reduzirá a quantidade de carbono na atmosfera para os níveis pré-revolução industrial.  Para atingir essa meta ambiciosa é possível contar com a sabedoria das sementes. É o que mostra a parceria da PRETATERRA com a Baobá Florestal, que usa a muvuca para implementar agroflorestas no projeto de restauração da Mata Atlântica, financiado pela UBS Optimus Foundation, em Timburi (SP).

Os sistemas agroflorestais (SAFs) permitem a restauração florestal aliada à produção agrícola, à soberania alimentar e à geração de renda para o agricultor. Uma técnica amplamente utilizada pela PRETATERRA para a implementação de agroflorestas, é a “muvuca de sementes”. De origem indígena, a palavra “muvuca” significa mistura. No contexto dos SAFs, ela é composta por sementes agrícolas e florestais, homogeneizadas por areia, terra ou substrato.

“Conheci a muvuca em 2002 com o Ernst Götsch, no início da minha formação acadêmica. Lembro que ele calculava as quantidades de sementes e substratos com base na média da fitofisionomia que estava sendo restaurada na sua agrofloresta de cacau, na Bahia. Ernst plantava a muvuca carregando, nas costas, um saco com abertura numa das pontas. Aquilo pra mim foi apaixonante e, na época, replicamos essa técnica em Guaraqueçaba, litoral do Paraná, em projetos de conservação e educação ambiental para crianças”, lembra Valter Ziantoni, cofundador da PRETATERRA.

Ao longo dos anos, muita coisa aconteceu. Profissionais como Paolo Sartorelli, da Baobá Florestal, sistematizaram esse conhecimento, tornando-o mecanizado e escalável. Hoje a muvuca pode ser plantada de forma manual, semi-mecanizada ou mecanizada, tornando-a viável para SAFs de qualquer tamanho. A muvuca é capaz de implementar, com sucesso, uma árvore por metro quadrado, perfazendo 10 mil árvores por hectare.

No plantio com muvuca observamos, desde o início, uma densidade alta de árvores jovens e plantas de adubação verde que protegem o solo do sol e do vento, criando um microclima sombreado e úmido para as sementes que germinam mais lentamente. A interação entre os microrganismos nas raízes de cada espécie complementa as necessidades nutricionais das árvores em formação, além de aumentar a fertilidade do solo. A essa sinergia de processos naturais é atribuída a capacidade da muvuca de estabelecer de duas a dez vezes mais árvores por área, por até um terço do custo de um plantio feito apenas com mudas.

“A primeira fase na implementação da muvuca é o diagnóstico ambiental para entendermos o contexto da área: em que bioma está inserida, qual era o ecossistema original, qual o potencial de regeneração natural, histórico de uso e ocupação do solo. Com base nesse conhecimento, listamos as espécies nativas regionais e calculamos a quantidade de sementes para cada uma em função do seu tamanho. As etapas seguintes incluem o preparo do solo para diminuição da biomassa de capins exóticos; controle dos capins de 20 a 30 dias depois; abertura das linhas para o plantio, distribuição e incorporação das sementes ao solo e, finalmente, controle dos capins que vierem a crescer na área aos 30, 60 e 90 dias pós-plantio.” explica Sartorelli. Quando passível de mecanização, é possível implantar centenas de hectares de muvuca em um só dia! Vale lembrar que todo o processo deve acontecer no período chuvoso. Caso não haja eventos extremos como geada, fogo ou pisoteio das mudas por animais, a muvuca dispensa o replantio e não há necessidade de irrigar as plantulas”, complementa.  

Além da diversidade de sementes, a muvuca permite uma gama extensa de aplicações, desde a horta agroflorestal até a restauração de Áreas de Preservação Permanente e Reservas Legais. Neste sentido, a muvuca se encaixa perfeitamente: com uma linha de semeadura direta e uma linha de mudas, a agrofloresta “muvucada” atende perfeitamente à lei nº 12.651, de 25 de maio de 2012, pois haverá uma linha de plantio para restauração e outra para produção. A composição varia de acordo com o bioma e o ecossistema onde o sistema produtivo será implantado e com os objetivos do produtor rural.

A cadeia da restauração como solução social

A restauração da paisagem com a agrofloresta estimula uma cadeia produtiva de regeneração ambiental que envolve povos indígenas, produtores rurais, agricultores familiares e urbanos, empreendedores e entusiastas. Com a regulamentação da Instrução Normativa nº 17, de 26 de abril de 2017, estabelecida pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), a venda do mix de sementes é permitida, gerando renda aos coletores. 

Detentores de um conhecimento prático e tradicional da localidade em que vivem e da vida rural, os coletores facilitam a localização e o preparo dos insumos necessários no processo. Além disso, a muvuca de sementes tem uma enorme capacidade de inclusão de gênero: as redes de sementes são compostas, em sua maioria, por mulheres (60 a 90%). “O feminino tem um papel fundamental no sucesso da restauração ecológica com a muvuca. Na minha experiência, esse recorte de gênero reflete nitidamente na qualidade, quantidade e riqueza de espécies coletadas”, relata Sartorelli.

No projeto agroflorestal para a Mata Atlântica em Timburi, região paulista produtora de café e abacate, a muvuca de sementes será usada como técnica principal nas áreas onde o objetivo é a restauração ecológica e a proteção de nascentes. Nas áreas de produção agrícola, ela será uma estratégia de enriquecimento das entrelinhas, complementando o plantio com as mudas e auxiliando na condução da regeneração natural. O processo será mecanizado desde o preparo do solo, controle de capins exóticos, até o plantio propriamente dito. As espécies semeadas são nativas regionais como pau d’alho, jatobá, capixingui, timburi, pau-pólvora, mutamba e jacarandás, totalizando cerca de 90 espécies.

Para contribuir com o avanço científico dessa técnica tão versátil, a PRETATERRA vem calculando as quantidades médias de sementes de cada espécie que compõem a muvuca, de forma muito acurada e contextualizada, usando medidas como peso, densidade e número de sementes por quilo e paralelos e respostas entre sementes ortodoxas e recalcitrantes. Também é estimado o número de indivíduos esperado num dado sistema para espécies pioneiras, intermediárias, secundárias, secundárias tardias e clímax”, conta Paula, cofundadora da PRETATERRA. “Hoje, a PRETATERRA detêm o maior knowhow em cálculo e sistematização do uso da muvuca em sistemas agroflorestais já criado e, estamos dispostos a compartilhar esse conhecimento”, complementa.

“Integrar essa tecnologia à agrofloresta possibilita utilizá-la na restauração da paisagem. Nos nossos designs contemplamos uma área com agrofloresta modular, replicável e elástica com muvuca nas entrelinhas e trabalhamos outras áreas com nascentes e cursos d’água onde fazemos muvuca também, otimizando o custo-benefício. Usamos a muvuca de sementes como estratégia complementar ao plantio com mudas e gostamos muito porque ela traz esse tripé ecológico, socioambiental e econômico. É um método de restauração revolucionário, pois cria pontes entre pessoas, ecologia, agricultura e economia”, finaliza Ziantoni.

Sobre a PRETATERRA

Iniciativa que se dedica à disseminação de sistemas agroflorestais regenerativos, desenvolvendo designs replicáveis e elásticos, combinando dados científicos, informações empíricas e conhecimentos tradicionais com inovações tecnológicas, construindo um novo paradigma produtivo que seja sustentável, resiliente e duradouro. 

Na vanguarda da Agrofloresta, a PRETATERRA projetou, implementou e modelou economicamente o design agroflorestal que ganhou, em 2019, o primeiro lugar em Sustentabilidade do Prêmio Novo Agro, do Banco Santander e da ESALQ, com o case “Café dos Contos”, em Monte Sião (MG). Em 2018, a PRETATERRA ganhou o primeiro lugar em negócios inovadores no concurso de startups no Hackatown e, em 2020, a PRETATERRA esteve entre os finalistas do Prêmio Latinoamerica Verde, de startups e projetos inovadores em sustentabilidade da América Latina. A convite do Principe Charles e do Instituto Florestal Europeu, em 2021 a PRETATERRA passa a liderar a frente agroflorestal da Aliança da Bioeconomia Circular.

Para mais informações acesse www.pretaterra.com e acompanhe as redes sociais: LinkedIn, Instagram, Facebook, Twitter e Youtube

Sobre a Baobá Florestal

Fundada em 2010, no oeste da Bahia, pelo engenheiro florestal Paolo Sartorelli, a Baobá Florestal é uma empresa de restauração ecológica que tem como principal método a muvuca de sementes. Além da restauração de ecossistemas terrestres, a empresa atua com inventário florestal e  identificação de espécies arbóreas brasileiras. Há dez anos a Baobá Florestal vem atuando de forma prática com a muvuca de sementes, capacitando comunidades tradicionais para identificação, coleta, beneficiamento e armazenamento das sementes, conduzindo a implantação, monitoramento e manejo do plantio.

Para mais informações acesse www.baobaflorestal.com.br e acompanhe as redes sociais: LinkedIn, Instagram


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