Para Quem Tem Pressa
Pesquisadores monitoraram o estrato médio e superior da Mata Atlântica no Pontal do Paranapanema (SP) com 27 armadilhas fotográficas arbóreas ao longo de quatro anos. O levantamento somou 9.872 dias-câmera e documentou 1.277 eventos de sete espécies de mamíferos, incluindo o mico-leão-preto. Os registros demonstraram que animais diurnos e noturnos utilizam as mesmas estruturas florestais e caixas-ninho sem confronto direto, dividindo os recursos pela alternância de horários. A técnica também permitiu acompanhar o crescimento de filhotes na natureza sem necessidade de captura constante.
O monitoramento de animais que vivem nas copas das árvores sempre representou um dos maiores desafios práticos para a biologia da conservação. No Pontal do Paranapanema, extremo oeste do estado de São Paulo, cientistas recorreram a armadilhas fotográficas instaladas entre 0,5 e 8 metros de altura para observar a vida de espécies arborícolas e escansoriais. O trabalho teve foco central no mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus), primata ameaçado de extinção e endêmico da Mata Atlântica paulista.
O levantamento foi conduzido por pesquisadores do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ), em parceria com a Unesp, USP e Universidade Federal de Viçosa (UFV). As conclusões foram publicadas no periódico internacional International Journal of Primatology.
Entre novembro de 2020 e dezembro de 2024, os dispositivos acumularam 9.872 dias-câmera de operação contínua em vídeo. As áreas avaliadas envolveram duas realidades distintas da região: o Parque Estadual Morro do Diabo, que abriga o maior bloco contínuo de floresta do interior paulista, e um fragmento florestal de 515 hectares localizado na Fazenda San Maria, no município de Presidente Epitácio.
Convivência sem disputa física
Ao todo, as câmeras computaram 1.277 eventos independentes de mamíferos divididos entre sete espécies: mico-leão-preto, macaco-prego (Sapajus nigritus), gambá-de-orelha-branca (Didelphis albiventris), cuíca-lanosa (Caluromys philander), cuíca-de-quatro-olhos (Marmosa paraguayana), esquilo (Guerlinguetus brasiliensis) e tamanduá-mirim (Tamandua tetradactyla).
Os dados revelaram uma dinâmica de partição temporal de nicho. Espécies distintas frequentaram exatamente os mesmos ocos de árvores e caixas-ninho artificiais sem que houvesse exclusão mútua. Enquanto os primatas e esquilos utilizavam os espaços durante o período diurno, marsupiais ocupavam as mesmas cavidades após o pôr do sol.
Em vez de disputas agressivas pelo mesmo abrigo, a comunidade de mamíferos adota uma separação horária, viabilizando o uso compartilhado de recursos escassos em matas fragmentadas.
As plataformas de alimentação instaladas nas copas representaram a estrutura com maior índice de detecções. Mesmo nos períodos em que estavam sem frutos, os animais continuaram utilizando as pranchas de madeira, o que indica que essas instalações passaram a servir também como pontes físicas para travessia entre galhos.
Quando houve oferta de alimento nas plataformas, os macacos-prego consumiram as frutas em 100% dos eventos registrados, exibindo comportamento oportunista. Já os micos-leões-pretos não interagiram diretamente com as iscas durante essas oportunidades, mantendo padrão de forrageio mais seletivo.
Rotina do mico-leão-preto e dados populacionais
A atividade diária do mico-leão-preto apresentou curva bimodal: os maiores picos de movimentação ocorreram no fim da manhã (entre 10h e 11h) e no final da tarde (entre 16h e 18h), com queda acentuada das ações ao escurecer. O aumento na locomoção perto do crepúsculo coincide com o momento em que os grupos intensificam a busca por presas como pequenos insetos e sapos antes de recolher-se aos dormitórios.
A posição das câmeras também gerou dados demográficos de três grupos monitorados. A partir da variação de porte corporal e características de pelagem, os biólogos conseguiram acompanhar o desenvolvimento individual de animais jovens ao longo dos meses.
Entre os casos documentados esteve o nascimento de um filhote no Parque Estadual Morro do Diabo, identificado no final de 2024, e o acompanhamento de um indivíduo juvenil na Fazenda San Maria, monitorado de março a dezembro de 2024, quando atingiu o estágio subadulto.
O monitoramento remoto por câmeras no dossel se consolida como ferramenta não invasiva para acompanhar primatas não habituados à presença humana. A metodologia dispensa capturas repetidas e fornece subsídios práticos para projetos de restauração florestal na Mata Atlântica, apontando que a oferta de abrigos artificiais e a preservação de árvores com ocos naturais são medidas decisivas para sustentar a fauna em habitats fragmentados.
fonte/crédito: Imagem destacada ilustrativa gerada por IA.
