Período de transição da La Niña para fase Neutra

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Condições meteorológicas ocorridas em março de 2021 no Rio Grande do Sul.

Conforme apontavam as previsões, março foi um mês com precipitações abaixo da média, na maioria das regiões do Rio Grande do Sul.  Em boa parte da Zona Sul, das Planícies Costeira Interna e Externa e em partes da região Central e da Fronteira Oeste, os volumes de precipitação ficaram entre 50 e 100 mm (Figura 1 A). Com isso, as anomalias de precipitação foram de -50 a -100 mm na maioria destes locais (Figura 1 B). No entanto, a frequência das precipitações foi razoavelmente alta, em algumas regiões (Figura 2), o que pode ter atrapalhado um pouco o processo de colheita do arroz, principalmente na segunda quinzena de março.

Contudo, se o tempo mais seco favorece a colheita, para a reposição dos mananciais e para a semeadura e estabelecimento de coberturas de solo e de pastagens de outono-inverno ele tem sido desfavorável.

Com relação às temperaturas, estas ficaram dentro do normal, com pequenas variações ao longo de março (Figura 2). Nota-se que na primeira quinzena, as temperaturas máximas e mínimas foram mais estáveis. Já na segunda quinzena, com a maior frequência de eventos de chuva, as temperaturas também tiveram maior oscilação, entre dias mais quentes e dias mais frios que a normal climatológica.

Situação atual do fenômeno ENOS (El Niño-Oscilação Sul) e perspectivas

Segundo o relatório da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), divulgado no dia 8 de abril de 2021, o Oceano Pacífico Equatorial deve entrar em Neutralidade climática no próximo mês. Já o Centro Australiano de Meteorologia indicou que o Pacífico está em fase Neutra desde o início de abril. Vale lembrar que o Centro Australiano considera fase Neutra quando as anomalias das águas do Pacífico estão entre -0,8 e +0,8 °C. Já a NOAA considera a fase Neutra com anomalias entre -0,5 e +0,5 °C.

De qualquer modo, a NOAA mostra 81 % de probabilidade de a fase Neutra predominar no trimestre maio-junho-julho. Ainda, segundo esse mesmo relatório, o sistema acoplado oceano-atmosfera esteve consistente com o enfraquecimento da La Niña em março.

O mapa da anomalia da Temperatura da Superfície do Mar (TSM) mostra que o Oceano Pacífico Equatorial esteve com a temperatura das águas praticamente dentro do padrão normal em março (Figura 3). O Pacífico mais neutro pode ter favorecido a entrada dos sistemas frontais, que causaram chuva no mês passado. Além disso, a temperatura das águas do Oceano Atlântico Sul também esteve quase dentro da normalidade em março, com poucas áreas com anomalias positivas, dificultando a ocorrência de chuva quando as frentes frias passaram.

As anomalias nas quatro regiões do Pacífico em março de 2021 foram de: -0,3 °C, -0,4 °C, -0.5 °C e -0,6 °C, respectivamente nas regiões do Niño1+2, Niño 3, Niño 3.4 e Niño 4. O valor do último trimestre (Jan-Fev-Mar) foi de -0,9 °C. Mesmo com a dissipação da La Niña, ressalta-se que as precipitações ainda poderão ser irregulares, com períodos secos e as chuvas ocorrendo de forma mal distribuída no RS.

Através dos gráficos da anomalia da temperatura das águas subsuperficiais (Figura 4) observa-se que a grande bolha de águas com temperaturas abaixo do normal praticamente sumiu na última pêntada, do início de abril, o que favorece o declínio da La Niña. Em contrapartida, a bolha de águas com anomalia positiva aumentou de extensão, mas diminuiu em intensidade. Esta bolha até poderá surgir em superfície, na região Niño1+2, no futuro próximo, porém, não deverá ter força para gerar um El Niño. No máximo poderá favorecer precipitações mais duradouras no RS. Esta evolução será acompanhada aqui, assim como seus possíveis impactos.

Precipitação no trimestre maio, junho e julho de 2021 no RS

Segundo as previsões do modelo do IRI (International Research Institute for Climate Society), no trimestre mai-jun-jul há em torno de 45 % de chance de as precipitações serem abaixo da média, em todo o RS. Por sua vez, o modelo CFSv2 (Climate Forecast System, da NOAA) prevê que em maio as precipitações ficarão dentro da normal climatológica na metade sul do RS e abaixo da normal na metade norte. Já para os meses de junho e julho, o modelo CFSv2 prevê que as precipitações irão ficar abaixo da média em todas as regiões do Estado.

A previsão do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) indica precipitação entre 10 e 50 mm abaixo da média em maio no RS. Para junho, o modelo prevê precipitações dentro da normal climatológica, em todas as regiões desse Estado. Já para julho, o modelo volta a prever precipitação abaixo da média para a maioria das regiões, com exceção das áreas de fronteira com o Uruguai, onde deverá ficar dentro da normal (Figura 5).

Embora se esteja em um período de transição, entre a La Niña e a fase Neutra do ENOS (El Niño-Oscilação Sul), a atmosfera ainda demora um tempo para responder a essa mudança. Com isso, chuvas irregulares ainda deverão ocorrer, assim como períodos mais secos prolongados, intercalados com períodos chuvosos.

A falta de maiores volumes de precipitação causa preocupação por parte dos produtores do RS, visto que:

    os reservatórios de água estão com os níveis baixos, gerando apreensão ao setor orizícola para a safra 2021/2022.

    a falta de regularidade e de bons volumes de precipitação também traz preocupação para a semeadura e o estabelecimento adequado das coberturas de solo ou para pastejo no outono-inverno.

Em contrapartida, o tempo mais seco tem favorecido a colheita do arroz e da soja no RS. No caso do arroz, segundo dados divulgados pelo Irga, no dia 22/4, 88,9% da área já foi colhida. Pensando na próxima safra, esse período de pouca chuva, pode ser aproveitado para a realização das operações de preparo de solo. Para não haver atraso na semeadura de arroz e de soja da próxima safra, as operações relacionadas à melhoria da drenagem da área, que inclui também a limpeza de drenos já existentes, devem ser realizadas aproveitando este tempo mais seco.

Na resteva de soja já podem ser feitas as curvas de níveis (taipas) e na resteva de arroz pode ser realizada a incorporação da palha e as demais operações. As colheitas de arroz e soja em período seco também mantém as condições da área favoráveis à semeadura direta na próxima safra.

Autor: Jossana Ceolin Cera é meteorologista, doutora em Engenharia Agrícola pela UFSM e consultora do Irga.

Fonte: Disponível em Portal de Noticias do IRGA.


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