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Adubação Nitrogenada e a Produtividade da Soja

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Objetivo do trabalho foi caracterizar os efeitos da adubação nitrogenada na produtividade da soja.

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A soja (Glycine max L.), é a principal oleaginosa produzida e consumida no mundo, sendo uma das principais commodities agrícolas. Sua importância destaca-se por suas aplicações na alimentação humana e animal, usos industriais e produção de biocombustíveis (Hirakuri e Lazzarotto, 2014). O Brasil encontra-se entre os maiores produtores mundiais de soja, com produtividade média de 3.379 kg ha-1 na safra 2019/2020, resultando na produção de quase 125 milhões de toneladas do grão.

Por configurar uma importante fonte protéica, visto que seus grãos são compostos por 40% de proteína (Hirakuri e Lazzarotto, 2014), a soja torna-se muito exigente em Nitrogênio (N), sendo este o elemento exigido em maior quantidade pela cultura. Cerca de 80 kg de N são extraídos para cada tonelada de grãos produzida, sendo mais de 60% desse total exportado pelos grãos (Petter et al., 2012).

Para a maioria das culturas o N é considerado o macronutriente exigido em maior quantidade, em função de suas funções como componente da clorofila, enzimas, ácidos nucléicos, proteínas e etc., tornando-o fundamental para o crescimento e divisão celular, síntese proteica, respiração celular, fotossíntese e outros processos (Taiz e Zeiger, 2013), tornando comum sua complementação através da adubação.

Contudo na soja, devido ao processo de Fixação Biológica de N (FBN) por meio da associação com bactérias, a utilização de N mineral é considerada controversa, havendo estudos com respostas ora positivas, ora negativas para a prática. Estima-se que com o advento de sistemas de produção mais tecnológicos e dinâmicos, a demanda de N na cultura possa elevar-se colocando em debate a capacidade da FBN suprir as necessidades totais do nutriente (Petter et al., 2012; Barranqueiro e Dalchiavon, 2017).

Neste contexto, o objetivo do trabalho foi caracterizar os efeitos da adubação nitrogenada na produtividade da soja, com base nos resultados de estudos publicados.

Material e Métodos

O procedimento adotado foi a pesquisa bibliográfica, fundamentada na obtenção de informações/ respostas por meio de dados analisados em estudos já publicados, possibilitando uma fonte de dados ampla, segura e que já passou por uma análise prévia. A revisão de literatura possibilita a realização de comparações e discussões sobre o tema debatido (Prodanov e Freitas, 2013). Na realização da pesquisa foram utilizados diversos estudos, priorizando o uso de artigos científicos, dissertações e teses publicados nos últimos 10 anos. Os locais de busca do material foram compostos por plataformas de busca de periódicos online. Foram utilizados descritores ou palavras chave, relacionados ao tema para afunilar e filtrar os resultados da pesquisa.

Resultados e Discussão

A necessidade de N na soja é elevada devido à alta porcentagem de proteínas no grão (cerca de 40%) (Hirakuri e Lazzarotto, 2014), resultando na exportação de 50 kg de N por tonelada de grãos (Petter et al., 2012), dessa forma considerando a produtividade nacional média de 3.379 kg ha-1 na safra 2019/2020, seriam removidos cerca de 170 kg ha-1 de N. Contudo, já existem regiões brasileiras com produtividade próxima de 6.000 kg ha-1, onde a exportação seria de 300 kg ha-1 de N.

Diante de tamanha demanda de N, retoma-se o debate sobre a capacidade da FBN suprir toda a necessidade da cultura pelo nutriente (Petter et al., 2012). Dessa forma a seguir serão apresentados estudos que indicam o efeito dessa prática na produtividade da cultura, porém, serão descartando os efeitos em outros componentes de produção como altura e altura de inserção da vagem (Franchini et al., 2015).

Iniciando pelos estudos onde a adubação nitrogenada não afetou a produtividade da soja, pode-se destacar Franchini et al. (2015), Braccini et al. (2016) e Korber et al. (2017), descritos na Tabela 1. Existem outros estudos que também demonstram a falta de efeito da adubação nitrogenada na produtividade da soja.

Em contrapartida, Bahry et al. (2013) e Pereira et al. (2018) (Tabela 1), constataram incrementos na produtividade da soja de mais de 20% com aplicação de N. Bahry et al. (2013), observaram que a aplicação de 30 kg ha-1 de N no estádio R5.2 elevou a produtividade de 2.860 kg ha-1 (testemunha) para 4.080 kg ha-1. Enquanto Pereira et al. (2018), constataram elevação na produtividade de 3.287 kg ha-1 (sem N) para até 4.136 kg ha-1 com aplicação de 10 kg ha-1 de N via foliar no estádio V2.

Barranqueiro e Dalchiavon (2017), avaliando o uso de 30 kg ha-1 de N de forma complementar a inoculação em diferentes estádios de desenvolvimento da soja em Latossolo Vermelho Amarelo, constataram elevação na produtividade com aplicações a partir de R1 em relação a testemunha e ao inoculante isolado. Enquanto Petter et al. (2012), avaliando a aplicação de 0 a 160 kg ha-1 de N em R1 em Latossolo Vermelho distrófico, constataram elevação na produtividade com doses de 20 a 40 kg ha-1 de N, com queda na mesma a partir de 80 kg ha-1. Destaca-se que com 300 kg ha-1 de N espera-se novas elevações na produtividade, porém, o custo inviabiliza tal aplicação.

De acordo com Zuffo et al. (2019), doses de N superiores a 20 kg ha-1 podem prejudicar a eficiência da FBN, sendo este o principal fator de desencorajamento da adubação nitrogenada no Brasil. Porém, em determinadas condições, como áreas de primeiro ciclo, onde o potencial de FBN ainda não está estabelecido, indica-se aplicação de até 30 kg ha-1 de N para suprir a demanda inicial da soja até o início da nodulação.

Portanto, conforme os estudos mencionados, em produtividade próximas e/ou superiores a 3.000 kg ha-1 é possível observar incrementos significativos com a aplicação de pequenas doses de N (20 a 40 kg ha-1).

Conclusão

No passado, em virtude das baixas produtividades de soja, a obtenção de efeitos significativos para adubação com N era incomum. Porém, com as novas cultivares e os sistemas de produção que possibilitam altas produtividades, respostas positivas ao uso de baixas doses de N tornam-se frequentes, em especial, quando aplicadas nas fases reprodutivas. Contudo, a viabilidade do processo deve ser avaliada em cada cenário.

Informações sobre os autores:

Doutorando em Agricultura, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) Botucatu/SP.

Mestra em Agricultura, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) Botucatu/SP.

Doutorando em Agronegócio e Desenvolvimento, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP) Tupã/SP.

Referências

BAHRY, C. A. et al. Características morfológicas e componentes de rendimento da soja submetida à adubação nitrogenada. Revista Agrarian, Dourados, v.6, n.21, p.281-288, 2013.

BARRANQUEIRO, H. R.; DALCHIAVON, F. C. Aplicação de Azoto na cultura da soja. Revista de Ciências Agrárias, v.40, n.1, p.196-204, 2017.

BRACCINI, A. L. et al. Co-inoculação e modos de aplicação de Bradyrhizobium japonicum e Azospirillum brasilense e adubação nitrogenada na nodulação das plantas e rendimento da cultura da soja. Scientia Agraria Paranaensis, Marechal Cândido Rondon, v.15, n.1, p.27-35, 2016.

FRANCHINI, J. C. et al. Desempenho da soja em consequência do manejo de pastagem, época de dessecação e adubação nitrogenada. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v.50, n.12, p.1131-1138, 2015.

HIRAKURI; M. H.; LAZZAROTTO, J. J. O agronegócio da soja nos contextos mundial e brasileiro. Londrina: Embrapa Soja, 2014. 70p.

KORBER, A. H. C. et al. Adubação nitrogenada e potássica em soja sob sistemas de semeadura. Revista Agricultura Neotropical, Cassilândia, v.4, n.4, p.38-45, 2017.

PEREIRA, C. S. Formas e estádios de aplicação de adubação nitrogenada no desenvolvimento e produtividade da soja. Revista Agroambiental, Pouso Alegre, v.10, n.4, p.99-112, 2018.

PETTER, F. A. et al. Resposta de cultivares de soja à adubação nitrogenada tardia em solos de cerrado. Revista Caatinga, Mossoró, v.25, n.1, p.67-72, 2012.

PRODANOV, C. C.; FREITAS, E. C. Metodologia do trabalho científico: Métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico. 2.ed. Nova Hamburgo: FEEVALE, 2013. 276p.

TAIZ, L.; ZEIGER, D. Fisiologia vegetal. 5. Ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.

ZUFFO, A. M. et al. Adubação nitrogenada na soja inibe nodulação e não melhora o crescimento inicial das plantas. RAMA, Maringá, v.12, n.2, p.333-349, 2019.

Autores: Bruno M. N. Cosmo¹; Tatiani M. Galeriani²; Willian A. L. Zanetti³

Fonte: Equipe Mais Soja. Imagem principal: Depositphotos/fotokostic (Dusan Kostic).


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